26.8.14

Marinha de outrora



Teve mau começo.

Não se sabe onde, quando e de quem nasceu.

Entrou na Roda em Faro a 18 de Abril de 1829.




Nesse mesmo dia o baptizaram na Sé com o nome de Sebastião e foi dado a criar a Bernarda Maria, mulher de Manuel Guerreiro, um casal que vivia na Tôrre de Natal, lugar da freguesia da Conceição, a meio caminho entre Faro e Pechão.




Com os tutores aprendeu a tratar do pomar e comerciar fruta.

‘Na forma do Sagrado Concílio Tridentino e da Constitüição do Bispado de Faro’, usando Sebastião Guerreiro como nome, casou-se com Thereza de Jesuz, de Pechão, que lhe deu dois filhos.

Enviüvou passados seis anos. No registo de óbito os nomes aparecem modificados: ela como Thereza Rosa de Jesuz, ele como Sebastião de Souza.

Sob a mesma regra e sendo de novo Sebastião de Souza, voltou a casar-se. Com Maria Catharina, mais uma vez de Pechão. Tiveram sete filhos, sendo que no registo de baptismo de pelo menos os três primeiros, volta a aparecer como Sebastião Guerreiro.

Do nome com que morreu, Sebastião Guerreiro da Tôrre, - gravado no gavetão do Cemitério da Boa Esperança que lhe guarda a urna - parece evidente a razão dos apelidos: Guerreiro adoptado do tutor; e Tôrre, do lugar.

De onde viria então o Souza? Uma explicação é que tenha acabado por saber algo da sua ascendência. Bem possível.

De qualquer modo, foi conhecido pelos três nomes e respeitado sob todos eles.

Ainda na posse de um Tôrre, existe no centro de Faro uma casa que foi sua e onde viveu, com frente na Travessa do Pé da Cruz e traseira na Rua Nova.



Esta casa foi palco de um auto, hoje com o seu quê de burlesco, mas que no fim do século dezanove, além de dramático, numa cidade pequena onde todos se conheciam terá tido contôrno de escândalo.

Foi o caso de Sebastião se ter ausentado a passeio para Lisboa durante uma semana, sem dar cavaco a Maria Catharina, exercício de liberdade de que ela não gostou. Tomou as suas medidas e quando o marido voltou, uma parede dividia a habitação em duas: cedeu-lhe a metade da frente e ficou com o lado da Rua Nova. Assim foi até Sebastião morrer em 1904. Dizia-se dela que não mais lhe falou.

Tiradas nos Grandes Armazéns do Chiado em 1900, são dessa escapadela aziaga, as duas fotografias a seguir:



A ocupação que lhe é atribuída nos documentos consultados é a de arrendatário.

Terá arrendado outras propriedades, mas houve uma à volta da qual a família se foi fixando, a Horta do Ferragial, cujo arrendamento aliás, foi herdado e mantido pelo primogénito do segundo casamento, Francisco Guerreiro da Tôrre.


   1939, Faro, Francisco Guerreiro da Tôrre



Dos dois ramos da família que teve em Sebastião o criador, houve cinco descendentes que se fizeram oficiais da Armada: um Construtor Naval, três da classe de Marinha e um do Serviço Geral.

É deste – Júlio Guerreiro da Tôrre - que quero falar.

Oitavo e último filho de Francisco, foi em 20 de Julho de 1903 que nasceu na Rua do Ferragial – actual Rua da Polícia, no preciso local onde hoje, à esquina, se entra no Comando da Polícia de Segurança Pública. Esquina que aliás só existe desde a urbanização da horta, com a abertura da rua Dona Teresa Ramalho Ortigão.

Cresceu na imensa propriedade de onde lhes vinha sustento. Armava aos pássaros, subia aos ninhos, chapinhava no tanque grande onde as mulheres pagavam uns centavos para lavar a roupa que ensaboavam e batiam na pedra lavrada posta em cada posição do lavadouro.


Faro, 1914/15? Parece ter uns 11 ou 12 anos.


Feita a instrução primária eclodiu a Grande Guerra.

Portugal era ingovernável. Os Presidentes do Ministério duravam dias. A dívida pública herdada em 1910, as despesas com a guerra, a inflacção, a desvalorização da moeda, empobreciam as pessoas e o futuro amedrontava-as.  

Para um miúdo cuja escolaridade terminara, o horizonte ficava longe.


Faro, 1918? Talvez aqui tivesse uns 15 anos.


O pai quis que fosse aprender o ofício de sapateiro. Júlio queria mais e rebelou-se.

Foi à Escola de Alunos Marinheiros - instalada no secular edifício que fôra Paço Episcopal, no Largo da Sé – colheu informações e decidiu que faria vida na Marinha. 


Era menor e precisava de autorização paterna. Levou ao pai os papéis a assinar, com medo de ouvir um não. Mas convenceu Francisco, que não deixou de o ameaçar:

- Quando perceberes a asneira e voltares, não contes comigo.

Assentou praça na Escola de Alunos Marinheiros do Sul. Foi o número 3 de 1919. Tinha 16 anos.

Freqüentou a Escola de Artilharia Naval que desde 1865 funcionava na Fragata Dom Fernando II e Glória.

Foi promovido a primeiro-grumète no dia em que completou 17 anos.




Lisboa, 1921?


Deve ser desse tempo e da Fragata Dom Fernando, esta equipa de futebol, em que Júlio é o quinto a contar da esquerda no último plano.

Feito artilheiro,


Lisboa, 1921?

não tardou muito, seguiu para o Extremo-Oriente, onde tínhamos presença naval constante.

Foi em Julho de 1922 a bordo do Paquete ‘Tenente Roby’.

A Lusitânia comemorava ainda a travessia aérea do Atlântico Sul por Sacadura Cabral e Gago Coutinho que elevara de uns pontos o índice de vaidade que lhe andava bem por baixo. A portugalidade na Ásia não era menor e os chineses iam fazendo sedosos bordados alusivos ao sucesso - p’ra mais tarde recordar.


Ali esteve por cinco anos, tendo por isso tido ocasião de servir em algumas unidades.

Construída no Arsenal de Lisboa, com fundos de uma subscrição nacional, reacção popular contra a submissão ao ultimato britânico de 1890, 


a canhoneira ‘Pátria - ter pertencido à sua guarnição - parece ter sido marcante na formação do jovem marujo.


1923, Extremo-Oriente, NRP ‘Pátria’



1924, Macau, NRP ‘Pátria’



1924, Shangai, NRP ‘Pátria’



1924, Shangai, NRP ‘Pátria’


Na fotografia acima, Júlio Tôrre está sentado no pau-de-cumeeira do tôldo; e no primeiro plano do lado direito, o segundo oficial desse lado, por quem ele nutria especial admiração é o 1º tenente Joaquim Marques Esparteiro, distinto artilheiro, possivelmente o Imediato.

De licença em terra alinhava em rapaziadas, destrajes e convívios.


1923, Macau, com Salvador Silvestre



1923, Macau, com José Marquilha




1924, Macau, com Beles Fragata, Júlio Bento e António Carrôlo



1924, Macau



1924.10.05, Shangai



Antecipando-se à Associação de Amizade Portugal-Portugal criada nos anos oitenta por Mário Moniz Pereira, vêem-se no dia da Rèpública de 1924 duas bandeiras de Portugal congraçadas, uma maneira original de expressar o desejo de que o país se reconcilie consigo próprio. 
Estar em Shangai não foi impedimento.


1925.10.14, Macau. Na Gruta de Camões.



1926, Macau



1926, Macau



1926, Macau. Elas não matam mas moem.

Júlio viveu muito tempo em concubinato com uma rapariga chinesa que o serenou e lhe refreou os ímpetos. Abria-se num sorriso quando falava de Macau, em especial da vida comum com a pequena.


1926, Macau. Na Gruta de Camões.


No Oriente, os marujos faziam grande gala no trajar. Os uniformes dos macaístas eram mesmo feitos por medida nos alfaiates e tinham um corte especial.



1926, Macau. Tirou as cartas de condução que havia para tirar.


Para a Ilha do Faial,1926 foi um ano terrível. De Abril a Agosto ocorreu uma série de sismos que culminou no dia 31 com um terramoto de maior violência que provocou mortos, muitos feridos e destruiu grande número de construções em várias freguesias, designadamente na cidade da Horta.

Somos um povo compassivo.

O Núcleo Desportivo Pátria, integrando muita marujada que a lonjura não tornara menos atenta, levou à cena em Hong-Kong em Fevereiro de 1927, uma Récita em benefício dos sinistrados do Faial.

Além de ter cantado no Acto de Variedades, Júlio representou a Tia Censura na comédia em um acto ‘Um Julgamento’.



Em Outubro de 1927 embarca no Transporte NRP ‘Pêro de Alenquer’ e regressa à Metrópole.


1929. Com 26 anos é 2º Sargento.


1934? Lisboa, Restauradores.

Apanhado por um fotógrafo de rua, com ar do pai de família que se prepara para ser. 
Casou-se em Janeiro de 1935.


1938.04.09, à beira do Arade


Num passeio da canhoneira 'Limpôpo', de Portimão a Silves, pelo Rio Arade.


1941, no Pôrto. 1º Sargento

De 1946 a 1951 prestou serviço nos Serviços de Marinha de Angola.


1947.07.05, Moçâmedes, Escrivão da Capitania
Com os filhos.



1947, Baía dos Tigres

Foi Delegado Marítimo da Baía dos Tigres nos últimos quatro meses do ano, tempo suficiente para denunciar o mau desempenho do Chefe do Posto Administrativo por ter matado um nativo à chibatada.

A fotografia mostra o edifício da Delegação Marítima, ligada por uma passadeira de concreto à rua principal e única da povoação, também ela do mesmo material, que cumpria em simultâneo a função de pista para o pequeno avião Stinson que tornava o deserto transponível.


1949, Lobito. Com mulher, filha e a macaca 'Lobito'

Foi Escrivão da Capitania do Lobito durante pouco mais de três anos. Regressou a Lisboa em Abril de 1951 para se preparar para o Curso Geral de Sargentos.


1951, Lisboa

Fotografia para renovação do Bilhete de Identidade que substituiu dois anos depois, quando se tornou Oficial do Serviço Geral e obteve o galão de Subtenente.


1953, Lisboa


1954.10.17, Lisboa, S. Vicente de Fora

Garboso, na sua sobrecasaca, símbolo de um caminho bem caminhado, apadrinhando uma noiva, filha de casal amigo.

No mês seguinte regressou ao ponto de partida, Faro; e foi Escrivão da Capitania do Porto até Agosto de 1959. Interessante é que a Capitania estava sedeada no mesmo ex-Paço Episcopal em que assentara praça quarenta anos antes.

Enviüvou em 1958 e tornou a casar-se.

Foi padrasto de um enteado que encaminhou p’rá Armada. Mais uma vez e sempre um artilheiro naval.
Enteado que tendo desaparecido cêdo teve ainda tempo de usar estrêlas nos ombros.

Júlio Guerreiro da Tôrre morreu a 1 de Janeiro de 1977, em Lisboa, no Campo de Santa Clara, num espaço onde após dois séculos de dedicação à saúde da Marinha, não pode mais morrer-se.



Mezena
26 de Agosto de 2014



































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