27.9.17

Angústia p’ra cagar




P’ra trabalhar estou cansado;
O brincar, não me apetece.
Estar de pé ou estar deitado,
Não me aquece ou arrefece!

E quanto mais neste estado
O meu corpo permanece,
Mais me sinto entediado,
Mais a vontade fenece.

Aguardando angustiado
Que o fim da angústia se apresse,
Sentei-me a ler no privado:

Não sei se foi do que lesse,
Se do cagar bem moldado,
Mas caguei todo o strésse!
                                                      José Guerreiro

                                                                                          Quelimane, 20 de Abril de 1975

9.8.17

O meu quarteirão

Ataíde de Oliveira e Antero de Quental – duas ruas e uma travessa em forma de éle – desenham o quadrado quase perfeito, do quarteirão onde morei até aos nove anos. Uma dezena de fogos, cujos quintais convergiam num poço de onde se tirava água a balde.



Pouco saía de casa. Minha mãe, não queria que o menino se misturasse com a garotada mais sôlta, que, com algum desdém, apelidava de môços-da-rua. De vez em quando, lá me era permitido pôr o nariz de fora, sentado ao poial da porta. Esgueirava-me logo que a via distraída, para olhar em redòr. Curioso, cirandava à volta do quarteirão, registando tudo. Esta falta de liberdade junto a casa, não colidia com as longas caminhadas – quantas vezes corridas – para executar mandados, sob contrôlo de tempo. Teria cinco anos, quando comecei a ser incumbido de ir à praça, fazer uma ou outra compra: no talho do Rudolfo, pedia carne de vaca; e do Brito, por 5$40 trazia meio-quilo de carneiro da perna. Mais tarde, aí pelos sete anos de idade, passei a ter mais espaço nas imediações de casa, que nunca desperdicei para aprender mais. Nem mesmo quando, tendo falhado a pontaria ao atirar uma pedra (não sei para onde), parti a vidraça de uma janela da casa do Transmontano.

Na porta ao lado, onde morava o Felício, quase nada acontecia, mas mais abaixo, à esquina, numa janela dos Leote podia aparecer a Cilinha, que me dava trôco às conversas acriançadas.

Se a seguir encontrava Dona Joaquina Camões, o diálogo tornava-se quase adulto e agradava-me sobretudo a sua atitude protectora, que um dia chegou a ter expressão real. Estava eu de cama, com febre alta e numa conversa através do poço, minha mãe lamentava-se de me ver piorar, ao invés da previsão do médico que pouco antes me observara. Perante os sintomas relatados e com a experiência de mãe de cinco filhos, Dona Joaquina foi peremptória: o menino tem garrotilho. Forçou uma segunda visita do médico, que foi obrigado a converter em difteria a gripe que, sem me ter feito abrir a boca, diagnosticara antes. Duas enormes ampôlas de sôro anti-diftérico espetadas na barriga e fui salvo quando o inchaço das amígadalas já pouco ar deixava passar. Eternamente agradecido, Dona Joaquina.

Logo a seguir, outra esquina, onde morava o Eduardinho Pité. Chamava-o. Do canto em frente aparecia também o Arsénio; e ali nos entretínhamos a comentar os feitos do Cuto no último Mosquito, ou a jogar ao berlinde, cheios de pena por não termos carôlos, as cobiçadas esferas de aço dos rolamentos. Como consôlo tirávamos da algibeira, o nosso melhor abafador. Nem sempre lhes batia à porta. Dava-lhes sinal com o som de uma gaita de cana que gostava muito de fazer. À vista de um canavial não resistia a tirar uma cana. Sem canivete, usava uma faca bem afiada, separava um pedaço com o comprimento de dois nós, com uma linha atava um bocadinho de papel de sêda bem esticado num extremo aberto, soprava em pequena abertura praticada no redondo junto ao outro lado e deliciava-me com o som roufenho que conseguia, em harmonia com as cantigas na moda.

Habitualmente fechada, a casa ao lado dava abrigo a duas irmãs entradas em anos, a Dona Emília que tomava conta da irmã mais nova, fraca de cabeça, no queixo um tufo de pêlos semelhante à barbicha de um chibo e a quem errada e maldosamente chamavam Carlos Quinto.

Defronte, no outro lado da rua, em mais um rés-do chão, vivia o Osvaldo Patrocínio, de quem viria a ser companheiro na Marinha.

Dali até à esquina apenas uma comprida parede caiada de branco, que a malta, com insistência, teimava em sujar com o vermelho da terra do solo. É que aquela parede, do quintal do Senhor Faílde, era a tabela usada dia a dia para pontapear uma bola de trapo, o maior número de vezes, sem que fôsse ao chão. Fazer uma daquelas bolas, arte muito considerada, era tarefa que cabia apenas aos eleitos, que além de arranjarem meias de malha de sêda de senhora para o enchimento, sabiam acabar o esférico com um cu-de-galinha bem feito e uma costura disfarçada. Eram os Vinhas, o Lòpinhos, o Leonardo Transmontano, algum O’Brien de Oliveira, o Felício, talvez o Jorge Aleixo, os artistas que se esmeravam a exibir os dotes para o pontapé. Eu e os mais novos, olhávamos cobiçòsos, tanto saber.

À distância da largura da rua no lado norte da Antero de Quental vivia a família Machado. Com tempo bonançoso, depois do jantar, íamos amiúde, eu e minha mãe, seroar a casa de Dona Maria Machado – a Mamã – cuja neta, Natália, foi a minha primeira amiga, responsável porque tivesse sido com bonecas que primeiro brinquei, enquanto à volta se cosia, fazia croché, tricotava ou bordava. Cedo me foram familiares, termos como cerzir, ponto-cruz ou ponto pé-de-flor.

No outro lado da travessa, uma esquina vazia de casas, mas atulhada de restos de cantaria de anteriores construções, onde reinavam urtigas, incapazes de deter o fascínio que ali nos agarrava em brincadeiras inventadas na hora. Mexer na terra era uma atracção.

A seguir era a casa dos O’Brien, três ou quatro irmãos – o mais novo, meu condiscípulo – renomados caçadores de pássaros, que me passavam à porta, armações de arame à cinta, enfeitada no regresso, com inúmeros passarinhos – mortos ao engôdo das agúdias esperneando espetadas no fino gancho-travão das armadilhas – pendurados, prontos para a fritada.



Depois vinha a casa do Joaquim Ventura – também meu companheiro de escola – com quem ia brincar – com êle e com a irmã, Elsa, chegando mesmo, se era hora disso, a sentar-me à mesa e partilhar das viandas – em segrêdo, que minha mãe me recomendava não comer fora de casa.

Entre esta morada e a minha, noutra esquina morava o Capitão Santana. No começo da carreira militar dormia na tarimba mas com tempo, ascendeu aos três galões dourados. Barlaventino, teria ao tempo, cinqüenta e poucos anos, era casado com Dona Adozinda e tinham duas filhas: a Fernanda e a Maria José.

Estas duas meninas, rigorosamente vestidas de estudantes – capa e batina – levaram-me teria uns seis anitos, ao meu primeiro baile, no ginásio do liceu velho. Sei que minha mãe se esmerou a ataviar-me, recordo-me de caminhar entre as duas irmãs e do ondular das capas sobre a minha cara com o vento soprando no espaço aberto entre as ruínas e os eucaliptos do caminho até ao ginásio, tapando-me os olhos, mal me deixando ver onde punha os pés, mas ficam por aqui as minhas lembranças. Entre gente a quem dava pela cinta, que terei andado por ali a fazer, noite dentro?

Pouco depois, o Capitão Santana – segurando vela – e a avó Francisquinha, apadrinharam minha irmã, baptizada na Sé.

Casa e quintal, desta família, ocupavam maior área do que qualquer outro fogo no quarteirão. Havia pequenos hortejos cultivados, uma frondosa figueira que deitava ramadas para o meu quintal e uma parreira que amarinhava parede acima, para dar sombra e uvas em pequena varanda do primeiro andar falso das traseiras.

A casa tinha aspecto sólido e estava pintada de uma cor arroxeada que a individualizava. Mas, estatuto mesmo, era-lhe dado pelo marco do correio postado à esquina bem junto da aresta entre as duas ruas. Só alguém que fôsse importante teria o correio à porta, pensava eu. Visitava muito aquele marco, sabia-lhe os detalhes; e se apanhava o carteiro na recolha das cartas, não me dispensava de ir espreitar e vê-lo por dentro.

A guerra, inicialmente tão favorável à Alemanha, mostrava-se agora com vantagem para os aliados. Dando-nos conta do seu curso, chegavam com freqüência, via postal, maços de folhas de papel de um conspícuo azul-irritante, abarrotadas de notícias. Em minha casa como na do Capitão Santana, a sua leitura não suscitava muito interêsse, já que grande parte continuava dentro dos envelopes e repousava sôbre móveis ou jazia pelo chão. Eram mais chamativas as fotografias que enchiam inúmeras revistas recebidas, de  blindados a porta-aviões, couraçados e cruzadores, fortalezas-voadoras, homens em uniforme, peças de artilharia fazendo fôgo, esteiras de fumo de aviões em queda, numa escolha bem feita pela propaganda aliada que exibia as suas vitórias e conseguia repôr um nível esperançoso de paz, onde ainda havia pouco o futuro era nublado.

À boca da noite, a BBC dava uma emissão em Português, naturalmente preenchida na totalidade com os sucessos da guerra. Acontecia, por vezes, estar a essa hora a fazer o papel de menino da casa, Dona Adozinda dera-me de jantar – decerto com o aval de Dona Maria José – e eu feito gente, fazia companhia ao senhor, ambos sentados em meiples, lado a lado.

Intrigava-me muito, aquele luminoso olho redondo verde mutante que o ajudava a encontrar a melhor posição do ponteiro da telefonia para ouvir as notícias. Operação de rigor, demorada, vagarosa, que aquela mão sapuda, levava a cabo com o maior cuidado e alguma destreza. Depois, puxava do livro de mortalhas, tirava uma, ajeitava-a, abria a onça, onde com dificuldade os dedos entravam para trazer tabaco e com paciência estendia-o no papel. Achado suficiente, enrolava-o (com pouco jeito), passava a língua pela cola e estava feito. Mas, valha a verdade, o resultado, mais do que um cigarro, era um canudo de papel de mortalha, amassado, tôrto e mal cheio. Levado à boca, entre um lábio superior enfeitado com uns quantos pêlos grisalhos e uma longa e estendida beiça inferior pedinchona, chegava-lhe finalmente o lume de um fósforo.

Ia observando atentamente todo este ritual – tão diferente do que via em meu pai, limitado a tirar um cigarro do maço de Paris – como diferente era o cheiro, mais intenso das irrequietas volutas de fumo em que se comprazia o meu companheiro de serão.

Era então, pronto para o noticiário, que o Capitão Santana, algo mouco, encostava o ouvido ao som e num silêncio atento, acompanhava a guerra.

Mas, o cansaço do dia, a digestão do jantar e uma predisposição natural, levavam-no direitinho ao sono. Obeso e flácido, comprimido na farda de cotim, apertado entre cinturão e talabarte, não tardava a cair num brando e mudo ressonar.

A face e a larga papada despejadas sobre o peito, a bòcha espreitando entre as abas do dólman, beata entre os beiços, apagada à míngua de tabaco e molhada da baba escorrida pelo canto da boca, acentuados papos sob os olhos cerrados… um retrato de repousada satisfação, reproduzia no Capitão Santana, a bem-aventurança de um Buda vizinho e amigo que fumasse.

– É tempo de ir para casa e dormir também!


José Guerreiro
Calvaria, 9 de Agosto de 2017



12.5.17

SER



É no junco ondulante do desenho dos teus passos

e sob a cortina meio-descida no brilho do teu olhar,

que adivinho a urgência infrene de ternos abraços,

e acorro, veloz, ao convite, no frenesi de tos dar.

Mãos nas mãos, bocas molhadas trocando segrêdos,

o apêrto côncavo dos ventres a perfumar desejo

e um surdo grito no crescente enclavinhar dos dedos,

dão vida à brusca avidez de nós e ao temor do fim do                                                        beijo.
Sufocados no manso calor dos teus e dos meus                                                                 braços,
impulso da primordial vontade que temos de nos dar,

ignorando a virtude, caída no chão feita em pedaços,

é para ali que nos deixamos ir, a pouco e pouco,                                                                devagar…
sendo, então, os dois, ciosos donos do corpo do seu                                                              par…

José Guerreiro

1 de Março de 2017

1.7.16

A RODA


François
      
Com o exército francês em debandada de Espanha, François, Sergent-Maréchal des logis, cansado dos riscos da guerra, cada vez maiores, decidiu fugir também. Para Portugal, onde entrara com Soult e voltara mais tarde destacado para as forças de Massena. Longe de França, longe de casa, sucumbiu à bonomia lusa e desertou. Guardava boas recordações do Alto Alentejo e do Ribatejo. Em Santarém, com uma jovem viúva, vivera uma aventura que quase lhe custara as divisas, suspeito que fôra de ter bichanado à senhora uma desusada procura de frescos que indiciava a deslocação das tropas para Sul.

Foi a direcção que acabou por tomar na fuga, quando se apercebeu da dificuldade de esgueirar-se para poente, rumo inicial, que o distanciaria mais rápido dos seus.

Promovido a Sargento-Marechal ao serviço de Massena aquando da última invasão, François, de rapaz alegre e expansivo que fôra, tornou-se ao fugir um homem de poucas falas que inspirava muitos mêdos. Parou antes de chegar ao mar, à vista do Cêrro de S. Miguel, num monte tanto algarvio na geografia quanto alentejano no aspecto e no amanho. Apresentou-se com o nome de Joel, francês desmobilizado. Pareceu-lhe que um nome falso o encobria melhor, na eventualidade de vir a ser procurado. Aceite devido à falta de braços, olhado de soslaio, ali se acoitou e foi ganhando a confiança dos patrões, à força de ser um trabalhador incansável, organizado e sabedor das coisas do campo. 
Breve assumiu a liderança dos moços da lavoura.
Dos amores vividos em Santarém trouxera umas luzes de português, que depressa ampliou no sol a sol da lida. Interessado em consolidar fuga e estatuto, fácil lhe foi aprender a arranhar uma linguagem que se entendesse. Tinha andado à escola e obtido na língua nativa o que entre nós veio a ser o primeiro grau. Não tardou também que com pedaços de jornal, amarrotados de embrulhar toda a sorte de necessidades, alisados com cuidado e paciência; e a ajuda de um ou outro livro de escola conseguido de almocreves, tivesse chegado à escrita.Tornou-se um indispensável.

No carro de mula, primeiro acompanhado, depois só, passou a ir ao moínho levar os pesados sacos de trigo; mais tarde já fazia as compras para o monte. Era conhecido nas redondezas. Não se sabe em que freguesias foi prègando. A verdade é que em pouco tempo, invejado, dele se dizia ter especial talento para seduzir mulheres mal casadas e viver também dessas seduções e de outros expedientes pouco claros. Tampouco havia a certeza de ser Joel o seu verdadeiro nome, que constava ter herdado com o espólio de um resistente que atingira a tiro e vira morrer. Decerto conversas de alcôva. O afrancesado, como por vezes lhe chamavam, usava, é verdade, pequena medalha de cobre em que desvanecida e riscada se adivinhava uma imagem com intenção de santidade. No verso, uma gravação tosca: Joel.  

Em pouco tempo se deu conta de poder acobertar-se melhor pondo fim aos rumores que corriam e lhe criavam uma fama injusta que o apoucava. Muito bem integrado no meio para um estrangeirado, passou a usar a verdade e a abusar dela. Num ápice cessaram os boatos. Joel diluiu-se na verdade. Não mais se lhe viu a medalha. Renasceu François.
Por ali se foi deixando ficar.
  
Quase quarentão, mais alto que baixo, forte e ossudo, tinha no linguajar em que se exprimia, com a pronúncia gutural dos erres de que não conseguia libertar-se, um dos seus encantos.


Brites

A bem mais que duas léguas do monte, ficava Pechão. Numa pequena casa afastada das demais, caiada como quase todas, esquinas debruadas a azul, telhado de quatro águas e rebuscada chaminé algarvia, Brites de Souza vivia com a filha, que dava tardiamente os primeiros passos.
Amanhava a horta que com a casa e algumas moedas lustrosas, completava o legado do pai, emigrado na Argentina, onde morrera de desgôsto, dizia-se, depois de ali ter perdido a mulher.
O marido, que partira para os Brasis ia para dois anos, pouco antes de a filha nascer, ainda não dera notícia.

Moça nova, no ponto, cheia de vontade de viver e crendo-se abandonada, cedo se deixou enredar no paleio daquele homem já maduro, que em tardinhas quentes de Setembro lhe passava à porta e se descobria com um sorriso. Janelas entreabertas para que alguma distraída corrente de ar temperasse o calor, ouvia o barulho dos cascos no chão em frente. Montando sempre a mesma mula, homem e bêsta airosos e asseados, levavam vantagem no cotejo com os varões do povoado, rudes, desleixados e mal ataviados, em cavalgaduras lazarentas.
Perceber que do intenso cheiro a homem estavam ausentes os odôres a vinho e a suòr que conhecera no seu, cativou-a. Em pouco tempo, ao invés de aparecer porque lhe sentia a chegada, era ela que se punha de janela, mais embonècada, ansiando-lhe a passagem. E como sofria quando ele não vinha… A distância era grande e só de vez em quando François conseguia tempo para o passeio a Pechão que começava a tornar-se uma necessidade.
 
Brites deixou-se embeiçar.
Caricioso mas não lamecha, sabedor, vigoroso e firme, François, deixando-a ajustar-se-lhe e enlear-se nele e esvaír-se numa luxúria partilhada e morna sequer sonhada, apagara-lhe da carne a lembrança do outro.

O lugar era isolado, sim, mas por pouco que se deixasse ver, a sua presença perto da casa de uma mulher só, foi assinalada e começou a ser pasto de invejas masculinas e mexericos do mulherio do povoado distante. Usar a noite como aliada, chegar nunca antes do lusco-fusco – cuidados menores para olhos curiosos – não foi bastante. A urgente necessidade um do outro, pô-los a nu.  

Vivendo havia tanto tempo como viúva de marido vivo, Brites, moça bonita, raçuda e apetitosa nunca dera oportunidade aos avanços tentados por um avèlhado ricaço, influente lavrador da região, em busca do prazer dos últimos vigores. Fora conhecida a determinação com que enxotara o homem e isso valera-lhe uma aura de honradez, agora em vivo contraste com o crescente rumor de amasiamento. 
Tão evidente se tornou o olhar crítico que lhe lançavam, quando, de filha ao colo ia a compras à venda, tal como o distanciamento nada acidental com que evitavam chegar-lhe à fala – nem aceno nem salvação – que de jovial por natureza, a expressão se lhe franziu em cenho cabisbaixo.
Também ele, por seu lado, passou a notar como à sua aproximação, as conversas emudeciam ou passavam a murmúrios e se sentiu alvo de olhares oblíqüos e alguma antipatia.

Conversaram muito. Que fazer?
O apêgo que os unia era bem mais forte do que já sabiam ser e sobrelevou o medo de enfrentar o pequeno mundo em volta. Resolveram arrostar com as conseqüências de um amancebamento às claras, fossem elas quais fossem. 
Decidiram viver juntos.

Determinado, François deixou o monte. O patrão ainda lhe acenou com uma mancheia de notas para que ficasse. Coitado, desconhecia não haver ouro que o desviasse da decisão, tão intensa fôra a descoberta do paraíso terreno, da fonte de vida que a novidade daquela vida a dois com plena entrega lhe mostrara.
Ela não chegara aos trinta e ele no cume do trajecto, fortes de espírito, fortes de força, ousariam.
Dariam conta do pomar e da pequena veiga em que tudo medrava.
Brites voltou a ser quem era. Andar decidido, porte erecto, olhar firme e frontal. Até a filha, afeiçoada ao único homem conhecido, que a mimava como se filha sua fosse, desabrochava numa criança robusta e risonha que os alegrava.

Trabalharam muito. E colheram.

Não é que no íntimo, cada um deles não tivesse considerado a possibilidade de outro filho. Naturalíssimo que acontecesse. Se calhar por acôrdo tácito, eles que de tudo falavam… disso nunca.
Mas aconteceu.


Concepção

As regras não apareceram.
Guardou para si a suspeita de uma prenhez que sendo embora prémio de uma afeição tão bonita quanto rara – e por isso, no íntimo, prémio desejado – vinha envenenada da bastardia com que a sociedade puritana e cruel marcava a ferrete os filhos nascidos fora do casamento consagrado.
Só agora, na eminência de a suspeita ser certeza, se dispunha a imaginar o futuro concreto, que vislumbrava difícil. Para si própria, sem dúvida. Mas o mêdo, a dôr maior, que lhe ocupava por completo o pensamento, era vir a ter um filho marcado pelo labéu da ilegitimidade.
Que seria dele? Que seria deles?
Quereria ter uma amiga e não tinha, que a ajudasse a pensar, a mostrar caminhos, a repousar-se das negras divagações que lhe ocupavam as insónias recentes.
Quanto a François, poupá-lo-ia até estar certa do seu estado.

Continuou a freqüentar a missa de domingo com a unção de sempre. Mas desde que deixara ocupar o lado vazio da cama, não mais tomara a hóstia, por uma sensação de perda do anterior estado de graça.
O padre, homem velho, careca, arredondado e sangüíneo, brusco de gestos e de palavras com os fiéis, predicava um Deus de tristeza, exigência e castigo que tresandava a maldade ao ameaçar com as labaredas ateadas por Satã.
Claro que sabia o que se passava portas adentro daquela casa. Meia dúzia de beatas embiocadas – pasquins de sacristia – esquecendo que ira e inveja são pecados mortais e escorrendo saliva de gôzo pelo canto das beiças, tê-lo-iam pôsto ao corrente do que julgavam saber e do que imaginavam.

Olhando com intenção a humilhada Brites, o sacerdote fizera no último domingo uma homilia talhada à sua medida. Congeminou uma parábola mal amanhada, ajustou-a como foi capaz ao alvo que escolhera e dissertou sobre luxúria, vaidade, a mulher do próximo e o que mais lhe ocorreu que pudesse ferir, não esquecendo um aceno com o anátema da excomunhão.
Olhos no lajedo frio da capela, lágrimas silenciosas, mente vazia, Brites sentiu cada palavra como frecha.
Se assim era agora, como seria a maldição à chegada da cria?

Confirmou-se. Brites estava cheia.
Só ela notava por enquanto o ligeiro inchamento do ventre. Apertava-se mais na roupa com medo de se denunciar quando saía e para se dar tempo de ganhar a coragem de abordar François.

Alegria, riso e contemplação que saüdam a renovação da vida, deram lugar a tristeza, lágrimas, infelicidade e remorso. Ambos cientes da punição a esperar de um povo fechado em convenções milenares que o reino sustentava e o clero brandia, 
temiam o futuro.
Mais virado para consôlo da mulher que se abatia em desgôsto do que para ponderar uma tomada de posição que os protegesse, tornou-se caseiro e preguiçoso e descurou a lida da horta. Tomava-a nos braços, mimava-a, mas faltava convicção às idèias e palavras de alívio que lhe segredava, só com esforço a não acompanhando nas lágrimas.
Sem réstia daquela vaidade feminina que tão bem lhe ia, sem gôsto para o que quer que fôsse, arrastando-se pela casa, Brites limitava à cozinha as suas tarefas qüotidianas. Era onde engendrava uma sopa ou um caldo sensaborão, mais por via do filho que já lhe mandava sinais, do que pelos que o aguardavam. Até a miúda sentia a mudança e de criança alegre e rüidosa que era por natureza, agora perdia viço e buscava calada no colo de François o calor que lhe faltava.

Sendo, como era, tão evidente o amor que os unia, a afeição de François pela enteada e a imagem de harmonia familiar que passavam para quem os olhasse sem preconceito, sempre acreditaram vir a conseguir uma aceitação senão total, ao menos que chegasse para uma vizinhança sem sobressaltos.
O filho a caminho que deveria trazer uma expressão de verdade a todo o edifício afectivo, era na circunstância um escolho. Acrescentava ao adultério – de algum modo atenuado já que não havia novas do marido – a marca da ilegitimidade, que os marginalizava sem regresso.
Era impossível continuarem a viver assim.

Não tinham noção de quando, como e porquê, mas deram por si a considerar a hipótese de desembaraçarem-se do pobre inocente. Não um desmancho, que para além do perigo real a que a mãe se expunha, desdizia tudo em que acreditavam, as mais íntimas convicções de ambos. Não. Por entre avanços e recuos, hesitações e incertezas, tomou vulto a idèia de encobrir gestão e parto e pô-lo na Roda.
Poderiam, quem sabe, segui-lo e mais tarde adoptá-lo.

Como conseguimos ser tolerantes connosco próprios…

Fácil seria manter o nascimento em segrêdo, se como a mulher lhe pediu, tivesse a ajuda de François. Mas ele teve medo. Com toda a razão. Não só não tinha qualquer ciência do assunto, como sabia das guerras em que participara, não ser fadado para cenas de sangue.
Do tempo em que trabalhara no monte e errava por estradas e caminhos, lembrou-se de ter ouvido falar numa mulher que ajudava a parir. Dela se dizia ser alcoviteira competente e contrariando o apôdo, capaz de guardar segrêdos. Era a comadre Amância que vivia isolada e só nos arredores de Estôi.
Encontrou-a. Combinaram que iria buscá-la quando o momento parecesse prestes.


A roda

Estava atento aos gemidos da maquinaria do relógio da Sé, à espera que badalasse as três. Acocorado entre caixotes que o taberneiro da Porta Nova, atirara ao acaso para a rua, escondia-se nem sabia bem de quê: o baixa-mar ainda vinha longe e nem vivalma no largo!... Mas não queria deixar de cumprir o juramento  –  selado com um punhado de moedas que recebera com avidez das mãos de François – de não se deixar ver, nem à criança. Com o recém-nascido entrapado, agasalhado e seguro com firmeza sob o gibão em farrapos, desceu ao Arco da Vila cosido com as paredes. Ali esperou uns minutos até que os pulmões tomassem jeito e se refizesse o bater do coração, viu o jardim vazio, correu para a Misericórdia, depôs o miúdo na Roda, rodou-a, agitou frenético o badalo da sineta que ecoou estridente no ar húmido e fugiu com a ligeireza silenciosa dos pés descalços direito à borda de água.


Sebastião


“Sebastião Exposto, dado pela Câmara desta cidade a criar a Bernarda Maria, mulher de Manuel Guerreiro, da Tôrre do Natal, freguesia da Conceição. Entrou na Roda no dia dezoito do mês de Abril de mil oitocentos e vinte e nove, foi baptizado e postos os Santos Óleos, por mim, abaixo assinado, no mesmo dia (?) supra. Foi padrinho Camillo da Luz, Sacristão adjunto desta Sé, de que para constar fiz este termo que (?) dia mês era ut supra. (?) (?) (?) (?) Joaquim Manuel Côrte Real”

                 Lisboa, Grandes Armazéns do Chiado, 1900. Sebastião Guerreiro da Tôrre

Bem poderá tudo isto ter assim acontecido.


José Guerreiro
CLV, 1 de Julho de 2016

9.6.16

Um banco a Sul e Sueste

Os bancos

Bancos, há-os por alamedas, ruas, jardins e avenidas; há-os aos centos, aos miles.  

Inteiriços, às ripas, em ferro, madeira, pedra, há por aí bancos dos mais variados tamanhos, côres e feitios.

Ganhar fôlego entre caminhadas, albergar ócios, acoutar velhos, são usanças para que os bancos se sentem talhados.

E mesmo em casa, de môchos junto à lareira a escabêlos aos pés da cama; de bancos-escadotes para alcançar a prateleira de cima a incómodos e quase nunca usados assentos de ferro, à chuva no quintal, também há uma imensa sorte de bancos que só ganham número ao fazer-se uma mudança.

Nestes tempos novos de concentração de lojas em edifícios imensos, com parques subterrâneos para automóveis empilhados como convèses de navios, escadas e passadeiras rolantes entre pisos e compridos chãos p’ra caminhar – um cansaço para os desinteressados nas compras, para diminuídos físicos e para os velhos – há bancos plantados em lugares bem escolhidos desses chãos – sofás nalguns casos – que já vou usando por necessidade de dar tempo aos músculos das pernas de repôrem o nível de oxigénio.

Os bancos soalheiros, são nos jardins, os mais procurados pelos vèlhinhos que buscam o calor que lhes vai falecendo no corpo. Cabeça coberta, às vezes os olhos fechados e o queixo apoiado nas mãos assentes numa bengala que seguram entre as pernas, tomam ali o seu banho diário de energia.

Mas não se fica por aqui o papel que os bancos podem ter.

Na alameda de Faro, sob o caramanchão junto à parede do antigo Liceu João de Deus, havia uma bancada em alvenaria rematada a azulejo, num recanto de tal modo escondido, que os namorados em vias de incêndio, iam lá ter sem dar por isso. A atestar que fôra palco de combate a um fôgo, corria à boca pequena que alguém ali esquecera umas cuèquinhas de imaculado côr-de-rosa.

Àcerca destoutro singular e meritório uso dado aos bancos, piorou-se ao passar do fôfo assento almofadado das carruagens para a secura rija da traseira dos automóveis, perdendo-se assim, tanto no espaço quanto na macieza dos estofos. Há mesmo registo da reclamação de damas mais licenciosas que viveram com desgosto a difícil transição, sem que os seus protestos colhessem junto dos amantes, inebriados com o novo papel activo de condutores, a fardamenta necessária e o futuro que a máquina barulhenta prenunciava.


Um banco a Sul e Sueste

A Oeste da Doca da Marinha havia três grupos de pontões de atracação. Logo ao lado, um cais para os cacilheiros grandes; depois a estação de Sul e Sueste, dos barcos de ligação aos combóios no Barreiro; e por fim, a zona dos cacilheiros pequenos, já perto do Cais das Colunas, onde anteriormente atracavam.

As três áreas eram bem demarcadas: e a dos cacilheiros pequenos limitada por um muro gradeado e um portão que se fechava à cidade entre a meia-noite e as seis da manhã.

A uns vintes metros do portão, um banco de pedra bem enraízado na calçada. Umas quantas toneladas de mármore branco, branco homogéneo, o encôsto cortado com perfil de curva sinuosa, uma espécie de éle mal desenhado rematado com volutas, a tentar reproduzir – sem grande êxito – a forma repousada das nossas costas.

Exposto ao tempo, perdera o polimento. Baço, de um brilho mate a esconder os pequeníssimos cristais, era um banco harmonioso de formas que na sua singeleza passava despercebido a quem não precisasse dele, tal como o irmão gémeo que o olhava distante, lá do lado do Campo das Cebôlas.

Recebido quando rapazinho em casa de amigos na Rua do Paraíso e no Bêco do Surra e mais tarde freguês assídüo dos eléctricos das carreiras de circulação da Graça, que atravessavam as Escolas-Gerais, tornei-me chegado a Alfama. A isso se deve, quem sabe, a preferência que dava à Parreirinha quando desafiava a regra do internato da Escola Naval e trocava o sono justo a que tinha direito no Alfeite por uma insone noite de fado, temperada a vinhos e petiscos.

Pelas quatro da manhã o cansaço chegava à sala e bocejo a bocejo ia de uma a outra mesa e dava conta da gente. Começava a debandada. Esfregando os olhos já mais fechados que abertos, era também essa a minha hora de saír, trôpego aos primeiros passos, mas ganhando equilíbrio com o ar frio de inverno que banhava a cidade.

Desperto de novo, lá descia pelo Jardim do Tabaco à marginal do Infante, antevendo já o suplício da espera por um barco que me levasse à outra banda. Mas à aproximação daquele já tão conhecido e quase íntimo banco de outras noites, assomavam de novo a indolência e o relaxe que precedem o sono.

Estava vazio. Podia deitar-me ao comprido. Ainda sobrava banco. Deitei-me como sempre para o lado direito, a cabeça sobre o cotovelo dobrado a fazer de almofada, na manga aveludada do encorpado moscou inglês do dólman.

Silêncio. Silêncio que tornava – será possível? – mais frio ainda, o gêlo daquela mole imensa de mármore que deixara de ver o sol tantas horas atrás. O primeiro contacto foi de arrepio, mas a quentura dos vinte anos, regulada pela enrugada rijeza dos balões do termostato, permitiu que as trocas de calor fossem rápidas e tivéssemos chegado a um entendimento: ele aceitava um pouco do meu calor e eu rejeitava quanto pudesse o frio que me dispensava.

Não tardou que a dormência falasse mais alto. Resguardei as mãos, uma prensada entre a cara e o braço, a outra no bolso das calças, ajustei-me como pude às curvas da pedra, imaginei como seria melhor estar metido nos lençóis de uma cama quente e tive um pensamento de respeito e dó pelos desgraçados sem teto. E apaguei.

Como é que em condições tão adversas, o meu inconsciente terá sido capaz de se pôr a sonhar?

Versos muito chorosos da Cruz de Guerra na voz da Berta Cardoso, havia pouco ouvidos na Parreirinha, sublinhados por uma guitarra langorosa, misturavam-se com o toque de alvorada de um clarim que num crescendo de aproximação à minha camarata calou tudo o resto. 

Há mecanismos incríveis!

Aquele clarim acordou-me mesmo a tempo de apanhar o primeiro cacilheiro.


José Guerreiro

CLV, 9 de Junho de 2016

16.4.16

Um lampejo sobre Angola


Ala p’ró liceu


Tinha acabado de fazer dez anos, quando me puseram fora de casa.

Vivíamos no sul de Angola, em Moçâmedes, onde meu pai era o escrivão da Capitania. Além de duas escolas primárias havia apenas a Escola de Pesca; e por aí se ficava a formação possível.

Os anos lectivo e civil coïncidiam, para que as férias grandes batessem no verão meridional. Acabei a 4ª classe na Escola 49 e logo de seguida, no início de Janeiro de 1947 fiz exame de admissão aos liceus na Escola 55.

Naquela terra imensa, dois liceus chegavam – chegariam? – para os pedidos de matrícula de gente apostada na valorização académica de mais sete anos de estudo: em Luanda, o ‘Salvador Correia’ e em Sá da Bandeira, o ‘Diogo Cão’.


Foi fácil escolher este último, que além de estar quatro vezes mais perto de casa dispunha de um belíssimo internato para cento e vinte rapazes.


Vejo com estranheza o desgosto dos moços que se desesperam com o segundo corte do cordão umbilical e o isolamento, independência e responsabilização a que ficam sujeitos em circunstâncias tais. Não fui assim. Aliás, comecei logo por viver feliz o tempo de preparação da viagem, com atenta participação activa nas diligências necessárias: ele foi o malão em mulemba, feito pelo senhor Piedade, ele foi o enxoval, que incluiu roupas de lã contra o frio do planalto da Huíla, a balalaica de càqui em que fiz muito empenho, por me parecer que viria a dar-me o ar de gente que via nos homens que as vestiam; ele foram por fim, os apêlos ao bom comportamento e dedicação aos livros.      

Abril de 1947 estava no início, quando no campo de aviação de Moçâmedes me enfiaram no avião, um biplano bimotor Dragon, para 7 passageiros.



Com o mesmo destino, viajava o Bauleth, moço já espigadote, a quem minha mãe pediu que olhasse por mim na viagem. Claro que não me ligou nenhuma. O destino, esse, estava mil e oitocentos metros mais alto, na cidade capital da Huíla, Sá da Bandeira, ou Lubango, como ainda lhe chamávamos apesar de ter sido rebaptizada.

Ninguém chorou, mas acredito que minha mãe tenha engolido lágrimas; e que teria gostado de me ver mais tristonho pela separação… Valha a verdade, curioso é que eu estava; e imbuïdo de um incipiente espírito de aventura que me tinha ficado do aprendizado da história e bebido em leituras infantis como ‘O Mosquito’. Só mais tarde percebi que tinha perdido o colo materno. Mas mantivemos sempre uma correspondência epistolar rica, em que se me não entregava por completo, deixava entrever com verdade, a verdade da minha vida e onde sem lamechices o nosso amor estava presente.

A segunda metade da viagem foi acidentada, feita num céu de nuvens escuríssimas, sob chuva intensa, entre relâmpagos e trovões - uma despedida das águas de Março realçada com a aproximação às serras da Leba e da Chela. Foi o início da aventura.  

As aulas começaram a 14 de Abril.


Os rituais de praxe preencheram grande parte da manhã. Tive sorte porque uma terceiranista se encantou no meu jeito frontal e sorridente e me deu protecção. Assim, ninguém me tesourou o cabêlo ou me fez malandrice de vulto. E lá consegui tomar assento na turma C do 1º ano. Era uma turma de trinta e poucos rapazes e eu tinha o número 23. Sem grande história, o aproveitamento foi bom e passei à etapa seguinte. Fiz amigos p’rá vida.

A grande novidade do 2º ano foi haver meninas na turma A, a que acediam os alunos que vinham com melhores notas. Esta vizinhança das saias, quando todos chegávamos à puberdade e íamos sofrendo o ajustamento do corpo à invasão das hormonas, deu origem a muitos olhares curiosos, comentários segredados e risinhos disfarçados. Mais entre elas; que os eles, menos ousados, mais tímidos e envergonhados, se defendiam com poses de macho. Acredito que esta proximidade de géneros durante o crescimento o tenha tornado mais fácil e harmonioso.

Com uma ou outra transferência, - pouquíssimas – nos terceiro e quarto anos, voltámos a ser quase os mesmos. Companheiras desse percurso, foram as irmãs Teresa e Helena Henriques Guimarães, na fotografia com a Margarida entre elas, durante uma excursão que fizemos ao Jau em 1950. Recordo ter aqui dançado com a Teresa, o que não entendo, pois além de ainda não saber dançar, de onde viria a música? Na imagem de grupo estou ao lado dela, talvez depois da bailação.



Filhas de um conhecido empresário, Helena e Teresa chegaram ao liceu vindas da União Sul-Africana onde estudaram, internas num colégio. Passavam-nos um bigode a inglês.

Havia mais três na irmandade: Chaleca, a primeira, mais à frente nos estudos, e mais novos, a Niné e um rapaz. Além das três que comigo freqüentaram o liceu não conheci mais ninguém da família. Nem sequer o patriarca, homem importante no burgo.


Licença ilimitada

Venâncio Guimarães tinha a idade do século. Nascido em S. Pedro do Sul, degrau a degrau chegou à universidade e teve acesso à Escola Naval de onde saíu oficial.

Numa viagem que fez a Angola, seduzido pelo mar sereno, o calor morno e os arvoredos floridos, deixou-se enlevar nos encantos de África. Tendo um tio homónimo radicado no Lubango onde fazia fortuna, decidiu mudar de vida. Era novo, não passara de tenente, mas conseguiu a passagem à licença ilimitada e foi juntar-se ao tio.

Durou pouco tempo o seu contributo para a Venâncio Guimarães & Companhia. Não se ajustando bem às idèias naturalmente mais velhas do tio, deixou-o e fundou uma firma concorrente, a Venâncio Guimarães, Sobrinho, que prosperou ràpidamente.

Com quase tudo por fazer na colónia, era fácil estender-se a novas áreas de exploração e negócio sem grande risco – o mar não estava longe – a tempo de recuar se não vingasse. Peixe, farinha, óleo e conservas, congelação, moagem, mas também importação e exportação, máquinas e ferramentas, transportes rodoviários, comércio geral, tipografia, edição e encadernação, cerveja, foram alguns dos meios de consolidação do pequeno império do ex-tenente.

Tenente embora, tratavam-no por comandante, título honorífico que ganhou com a sua crescente implantação na sociedade chicoronha.

Viajei um par de vezes em camionetas da carreira Venâncio entre Sá da Bandeira e Benguela, quando o couto de férias mudou para o Lobito, onde meu pai passou a servir. Também o fiz em camionetas da concorrência. Conservo um documento que após quase setenta anos tem importância que bonde para ser mostrado. Trata-se de uma guia de remessa do atrás citado malão, pesado demais para me acompanhar num dos Dakotas entretanto chegados à DTA – Divisão de Exploração dos Tranportes Aéreos de Angola – para substituir os Dragon.


A camioneta da carreira da SIL que fez este transporte, era habitualmente conduzida por Romero Miranda, um bacano com manhas de caçador que se fazia acompanhar de uma velha carabina 22 longo, para o que desse e viesse. Tratei sempre de viajar perto dele para lhe ouvir mirabolantes histórias de caça.


Terceira Rèpública

A maioria dos brancos em Angola tinha ali investido a vida. Muita gente vendera no ‘puto’ as courelas avoengas para aumentar o património na ‘nossa África’. Atemorizados, empurrados de roldão para as fronteiras, uns quantos anos encaixotados à pressa nas traseiras do quintal – no pregar as tampas, dalguns caixotes se ouviam queixumes, tal o aperto das gerações que lá tiveram de caber – saíram, como puderam, em direcção a muitos mundos.

Dezenas de barcos fugiram de Angola pela calada. Entre eles uma embarcação de pesca de Venâncio Guimarães que acabou por demandar Olhão, onde ao tempo era eu o Capitão do Porto.

Peregrinos do Verão algarvio visitaram-me muito em quatro anos na cidade cubista; e algumas amizades do período angolano não faltaram. Do Abel Lara, companheiro de internato, finalista do liceu quando eu começava e de quem não sabia desde então, recebi apenas um telefonema.

O Abel, ingénüo responsável pelo fumador temporão que fui e padrinho da alcunha – ‘Varela’ – que ainda hoje me identifica quando regresso à juventude, casado com a Teresa, queria falar-me do barco que o sogro pusera à venda, saber da documentação necessária e de outras eventuais implicações do acto. Na verdade, procurava uma asa que o protegesse de qualquer empecilho burocrático.

Quando os papéis foram entregues, não havia desconformidades – ainda bem – e a embarcação foi transacionada.


Os livros

Dias passados, de surpresa, Venâncio Guimarães fez-se presente ao balcão da Capitania e pediu que o recebesse. Fui buscá-lo à entrada e conduzi-o ao meu gabinete. Apresentámo-nos, não regateámos comandâncias e mantivemos uma cordial e tranqüila conversa por mais de uma hora. Afinal, um ror de tempo depois conhecia o pai das minhas amigas.

Queria agradecer-me a agilização do processo, a brevidade da burocracia… Lá lhe disse que não havia de quê, o pessoal agira como sempre, pela cartilha; e todo o mérito assentava no acêrto da documentação.

Ultrapassados os galhardetes, passámos à parte interessante do diálogo. Falámos de Angola, da família também, mas detivemo-nos mais na então ainda nova rèpública.

Curioso de saber como vivia e sobrevivia um homem velho – estava com oitenta anos – ao esbulho da riqueza acumulada, reduzido a uma inactividade de todo nova, à perda do estatuto além conquistado e à agressividade da recepção reservada aos perigosos colonialistas, foi esta a resposta:

- Sim, valia mais de um milhão de contos o que por lá me ficou. Muito dinheiro, mas apenas isso, dinheiro. Os bancos conhecem-me… emprestaram-me vinte mil contos, dediquei-me à suinicultura em Rio Maior e já sou um dos maiores produtores de porcos do país. Agora há uma coisa que não consigo esquecer:

- Não me deixaram trazer os meus livros. Isso, não lhes perdôo!





José Guerreiro

CLV, 16 de Abril de 2016









28.3.16

A vedeta das onze


Nota prévia

Por muito que tenha querido acompanhar a evolução do pensamento social, há áreas em que o não consegui.

É o caso do cada vez mais freqüentado teatro de homens sexualmente atraídos que se recusam o mais primordial dos instintos: adubar a árvore de que são ramos e honrar os pais, continuando-os;

E que por vezes, nas tábuas do palco a que sobem e onde se expõem à luz dos holofotes, têm o supremo dislate de querer convencer-nos que levam passo errado os que na marcha da vida o não acertam por eles.


Os meus quartos

Terminado o curso na Escola Naval, aboletei-me no quarto número vinte da Messe do Alfeite que foi minha casa durante anos, porque consegui conservá-lo durante as duas primeiras estadias africanas, que fiz a bordo do ‘Sal’ e da ‘Diogo Gomes’. Deixei-o na manhã do dia em que me casei.

Assídüo freguês do pequeno ginásio original do Centro de Educação Física da Armada (CEFA), viver ali a dois passos, dava-me acesso fácil às tabelas de basquete ou às grandes futeboladas que por lá aconteciam.

Houve tempo em que me dei ao luxo de alugar também um quarto no Clube Militar Naval, na Praça Marquês de Pombal. Não tinha compromissos e podia derreter como me aprouvesse o modesto vencimento. Tanto assim era que a anos-luz de poder comprar um automóvel, tinha por minha conta, todos os carros da praça de Lisboa. Nos dias do mês sobrantes do fim do dinheiro, recolhia-me a uma orgulhosa e quieta modéstia.

Na messe tinha maior comodidade, já que as instalações haviam sido desenhadas com o propósito de alojar oficiais solteiros, a mobília, simples, era adeqüada à finalidade, os sanitários, embora comuns, eram bons e suficientes e uma caldeirinha espalhava um calor macio que levava de vencida a humidade da mata à volta.

Mas a par disto, como os vinte anos ansiavam sobretudo ser vividos na cidade grande, o quarto no clube servia de abrigo e repouso às noitadas mais agrestes.

O último cacilheiro saía de Lisboa à meia-noite; e da Doca da Marinha, as vedetas  largavam para o Alfeite, uma às onze e outra à uma da manhã. Raramente aquelas horas se compatibilizavam com as minhas que eu teimava querer absolutas.

Se tomava táxi assim que chegava a Lisboa, nem sempre sabendo para onde ia, mas sabendo que tinha pressa, de volta tinha especial prazer em caminhar. Nas noites de inverno, difícil de combater o frio intenso naquela divisão do primeiro andar do Militar Naval com apenas um pequeno aquecedor eléctrico, saber do forninho à espera no quarto vinte, era incentivo maior para me pôr a caminho.

Quase sempre, descia toda a Avenida da Liberdade, enfiava pela Rua do Ouro e virava  a Sul e Sueste até à vedeta. Ajustava o passo ao tempo disponível e não raro acabava correndo. A tolerância de algum patrão mais simpático não ia além de um ou dois minutos, tendo por isso chegado a acontecer-me encontrar o cais vazio.

Em razão do que, em meia-dúzia de ocasiões de mais urgente necessidade de descanso, aluguei cacilheiros grandes, que estacionavam na margem Sul e que depois de um telefonema vinham buscar-nos por cento e vinte paus. Acontecia então representar o papel de homem generoso que oferece transporte a retardatários menos abastados e que não eram poucos.


A vedeta das onze

Algum programa se terá gorado para eu estar a descer a avenida tão cedo.
Parei nas grandes montras do São Jorge p’ra me inteirar dos filmes programados, hesitei à porta de esquina de uma pastelaria perto da delegação do Belenenses mas resisti e continuei. Não entrei no Pirata. Porém, ao contornar o Avenida Palace, olhei o outro lado da rua e vi o Casulo, aberto havia pouco, onde se esmeravam a fazer uns bôlos apetitosos à vista que satisfaziam a minha requintada avidez de açúcar. Comi dois, bebi um café e saí.

À porta cruzei-me com uma cara conhecida, um moço com idade da ordem da minha, um marujo – marinheiro radarista - que via por vezes no ginásio do CEFA, onde era monitor. Cumprimentei-o.

Saí e reencetei o meu passeio para a vedeta das onze.
Parando aqui e ali para olhar as montras mais chamativas, a uma delas apareceu também o rapaz que vira no Casulo. Avancei, parei mais à frente… e o moço de novo ao mesmo vidro que eu.

Não estranhei. Sendo marinheiro, era natural que fôssemos na mesma direcção: a vedeta.

Uma vitrina mais além e de novo o marujo. Só que desta vez se chegou perto de mim e sussurrou:

- Ó filho… quando é que te descoses?

Hesitante, estaquei, incrédulo.

Decidi-me por avançar, sem qualquer réplica. Com as engrenagens em afanoso e quase barulhento maquinar, cheguei à vedeta.

Sentei-me na Câmara de Oficiais. Não sei se o moço embarcou na vedeta, não o vi mais. Ainda que tenha embarcado, ocuparia a zona das praças – não me teria visto.

Na manhã seguinte, serenadas as retorcidas circunvoluções cerebrais, assim que tive uma aberta, fui ao CEFA. Agora vestido de segundo-tenente, nos ombros os galões luzentes de novos.

Lá estava o monitor – não cheguei a saber-lhe o nome. Chamei-o de lado e encetei o sermão sem missa cantada que preparara. Pouco palavreado para não perder a força. Pus a tónica na honradez máscula que se espera de um marujo sem me deter nos aspectos morais da coisa, mas verberei o modo que escolhera para fazer fichas.

Surpreso desde que me vira, o moço ia assentindo em silêncio.

Por fim, olhei firme a praça algo amedrontada, bati ainda nas teclas da honra e da masculinidade; e ousado, ingénüo e arriscado como decerto não seria hoje, rematei:

- Então?... Inda queres que me descôsa?


José Guerreiro

CLV, 28 de Março de 2016