27.4.18

Na Rua Ataíde de Oliveira, em Faro

O gôsto de recordar

“Há quem viva sem dar por nada…”, canta José Afonso. Há, de facto. 
Pretendo não fazer parte do grupo.
Conservo presente o passado, sim… mas passado. 
Passado que integrei, como personagem, como figurante, como observador. Arrumado nas circunvoluções da memória, nem sempre com rigor de cenário
e precisão na fita do tempo, mas sem abdicar da verdade. 
Começo a sentir dificuldade em agarrar pormenores que dantes acorriam com presteza. Por natural predisposição, exercito os mecanismos de leitura de anteriores experiências e combato o desgaste com que o tempo vai minando o desempenho da massa cinzenta. É o que aqui faço, ao recordar e passar a escrito a visão que conservo do meio em que cresci. É um relato com interêsse nulo para além de mim. Aqueles que poderiam ajudar-me e partilhá-lo, já
se foram; e minha irmã era nova demais para ter lembranças. Escrever estas linhas, é por isso um prazer solitário e egoísta que me dou e a que me dou com entusiasmo.

Entretanto, procurarei esgrimir bem as palavras, tanto quanto souber, para ganhar aí, quiçá, algum atenção vossa para o exercício, quanto mais não seja, pelo que contem de retrato de uma época.


Guerras

Quando apareci, a Guerra Civil de Espanha já levava quatro meses de afã.
E de entre nós, muita gente ali foi guerrear, quer pela Segunda Rèpública Espanhola, quer pelos Nacionalistas. Durou três anos.
Pouco depois, não tardou muito, a Alemanha Nàzi, deu início à Segunda Guerra Mundial que chegaria a ter quase seis anos e a estender-se até aos Pirinéus.
Já eu passava para a terceira classe quando em Maio de 1945 cessou o conflito.
Assim, os meus primeiros oito anos e meio de vida, foram vividos com limitações de ordem vária – as que um estado de guerra provoca mesmo para além das suas fronteiras.
A escassez de alimentos básicos levava ao racionamento e aumento dos preços, tornando mais curtos os salários. Nestes, não havia margem para mexer.
Umas centenas de escudos em notas – cem para pagar a renda ao senhor Custódio – era quanto meu pai enviava para casa todos os meses, dentro de um envelope de valor declarado, envelope de papel especial, feito sôbre uma rede de fios de tecido que lhe davam corpo e tornavam forte e difícil de rasgar.
Êste sobrescrito, quase sempre azul, tinha no rôsto impressas, linhas ondeadas, onde se escrevia o valor que continha, indicado tanto em algarismos 
como por extenso.
Gerido com inteligência e mão forreta, aquele dinheiro permitia-nos viver uma suficiência confortável.

Rua Ataíde de Oliveira, 21

A casa onde morávamos, bem no meio do núcleo original do Bairro do 
Bom-João, tinha o desenho comum à maioria das que no primeiro quartel do século passado se fizeram em Faro: num rectângulo comprido e estreito, dois corredores a todo o comprimento e quatro assoalhadas e cozinha entre êles. Um dos corredores, exterior, com chão de ladrilho de barro para onde davam 
janelas, era, apesar da pouca largura, mas com muita pretensão, 
chamado de quintal.
Razão para aquele formato esticado era decerto facilitar que maior número de casas pudessem convergir no poço que as abastecia de água, tirada a balde de ferro, alado por cabo gornido em roldana.

A frontaria – uma janela entre duas portas – antecipava o interior: aberta a porta principal e subidos quatro degraus para um pequeníssimo pátio, entrava-se no corredor interno (com portas para todas as divisões), enquanto a outra, mais tôsca, era a porta do quintal. A janela servia a única sala junto à rua.

A esta divisão, com estante, meiple, mesinha e rádio, e ainda uma secretária, chamávamos escritório, o que lhe acrescentava alguma importância. No chão, tapete vistoso. De um grosso varão canelado de latão, fixado na parede sôbre a janela, pendia a cortina cheia de flôres bordadas num arrendado fino,



tapando-a de olhares da rua; e a toda a largura da base, no tôpo de uma armação de ferro forjado com um palmo de altura, todo voltas e contra-voltas, assentava um estreito peitoril de madeira.
Em pé sôbre um banco, quando às quartas e sábados , rememorando os últimos capítulos de aventuras,me punha de janela aguardando ansioso a chegada 
d’O Mosquito, era na face plana daquele delgado parapeito de madeira que pousava os braços.
Sôbre a secretária com tampo de vidro, uma base de pergamóide coberta de papel mata-borrão côr-de-rosa, um suporte de mármore preto com canetas, tinteiro onde se embebiam os aparos e um mata-borrão Tank.



A um canto, lindo e exótico candeeiro chinês – buda de louça suportando um abàjur – que meu pai trouxera de Macau, de onde viera também o quadro bordado a sêda, alusivo à travessia de Sacadura Cabral e Gago Coutinho, pendurado na parede, em lugar de destaque – mais tarde (1951) oferecido ao Museu da Marinha. Da mesma origem, bela pintura sôbre fêltro canelado, hoje pendurada à minha cabeceira, uma raridade.  



Uns quantos livros nas prateleiras da estante, alguma ficção de cordel, livros escolares, exemplares d’O Papagaio e d’O Senhor Doutor,




         
um álbum de fotografias com capas de madeira lacada do Oriente e papelada vária, tudo protegido da claridade por cortinas avermelhadas fixadas no interior das portas. Mas o meu encanto ia todo para as duas gavetas que faziam a base do móvel onde havia um mundo de coisas: cadernos de papel almaço, liso e
pautado, lápis comuns, lápis de tinta, borrachas, aparos, clipes, mata-borrões, tachas,



sinête, paus de lacre, etc. E em contraste com tudo isto, como se ali estivessem por engano, um baralho de cartas e um isqueiro com o Rato Mickey.

A divisão seguinte era o quarto de meus pais. Mobília de bonito desenho, moderno ao tempo : guarda-roupa, psiché  e cama, com as imagens do Imaculado Coração de Maria e de Jesus Misericordioso na parede da cabeceira. Do guarda-fato, lembro o cheiro penetrante a naftalina que identificava com
limpeza. Na cama, um ‘couvre-pieds’ de pêlo macio, muito espêsso, azul brilhante de um lado, com lavrados castanhos no outro, em que dava prazer roçarmo-nos. Sôbre o mármore do psiché, frascos de perfume, um com tubo borrifador, caixa de pó-de-arrôz Tokalon



e ao lado, a borla – como que um ouriço de finíssimos fios de sêda branca, para empoar o rosto – mais alguns objectos de utilidade feminina e uma pequena jarra de vidro fôsco, em que me habituei a ver singelas flôres silvestres. 
Estava-me vedado mexer neste móvel, mas sabia – minha mãe tinha-me mostrado – guardar-se ali uma caixa com frágil apetrecho de vidros e borrachas, que fôra utilizado para me alimentar.
Em sua mama uma aplicação de vidro e na minha boca uma tetina. O apêrto de uma ampôla de borracha a meio, sugava da têta o leite que eu não conseguia saber chupar e outro apêrto esguichava-o para mim. 
Por falta de jeito ou preguiça, não consegui mamar que chegasse  durante o primeiro mês e definhava. Usado o aparelho meu salvador, aprendi e pelos vistos gostei. De tal forma, que mamei catorze meses.

Avançando no corredor, a porta seguinte dava para o meu quarto. Mais um guarda-fato, mais um psiché e a bela cama de criança com guardas, comprada na Casa Nobre, por mim estreada aos dois anos. Mais tarde, foi de minha irmã e ainda de meus filhos. 
Os bonecos estampados na cabeceira faziam as minhas delícias.
Encostado a uma parede, o psiché, alto, com grande espelho central, duas pequenas gavetas laterais elevadas, encimadas por espelhos, modestos no tamanho, que reflectiam dois lindos e artísticos bibelôs de porcelana pousados com a-propósito sôbre o teto das gavetas – sobreviveu um deles, que
conservo na minha escrivaninha, onde o estou vendo –   


e no tampo central, mais baixo, um guarda-jóias de madeira escura e aplicações de prata, forrado a cetim por dentro, que em verdade não guardava nada. Havia também, náperons, perfumes e dois búzios sarapintados. Na base, mais gavetas, com roupa branca, calções, blusas e pulóvères meus.
Da mesma traça, o guarda-roupa pouco dava nas vistas, mas quando aberto, o cheiro a naftalina sobrepunha-se ao também muito activo odor da cêra que fazia brilhar as tábuas compridas do soalho.

Depois vinha o quarto das malas. Certo que havia malas de viagem, debaixo de uma cama de ferro pintado de branco, onde uma colcha côr-de-frade cobria o colchão de carepa, assente em dois enxergões de palha.
Mas o que avultava era um enorme malão em madeira lisa de cânfora, que meu pai trouxera em 1927 no regresso de cinco anos de comissão em Macau. 
A exploração do contido naquela mala imensa, era entretenga certa quando a Natália aparecia para brincar comigo. Tresandando a cânfora, dali saíam as mais
inesperadas coisas: almofadas de cetim, compridos e elegantes robes femininos, com longos desenhos estampados de côres suaves em crepe da China, um banjo, um cachimbo de ópio com grande e fina boquilha e minúsculo fornilho,



um par de poláinas de cabedal grôsso, que o pai usava quando ia caçar com o amigo Pàzadas ou com meu tio Zé Grelha, mas também meias, camisolas interiores, uma bengala e uma sombrinha chinesa de varetas em bambú.



Um mundo. 
Quase oitenta anos passados, esta mala, vive no meu sótão, e tem o conteúdo todo renovado, mas confesso, não faço idèia com quê.
Neste quarto das malas havia ainda um lavatório, móvel antigo em madeira polida, tampo de mármore e uma grande bacia de louça. Nas tardes calmas do fim da Primavera e ao longo do Verão, só calçava sandálias; e quando conseguia brincar na rua – o que não era freqüente – chegava a casa com os pés nojentos da terra vermelha. Era então no mármore do lavatório, que minha mãe me fazia sentar, com os pés na bacia, em grande lavação de sabão azul e esponja, para os poder enfiar na cama.

Voltando a caminhar pelo corredor, evitando encalhar na máquina de costura ali encostada, chega a vez da sala de jantar, usada mais para receber visitas do que para comer. Embutido numa das paredes, um armário de madeira, com duas gavetas a meia-altura e prateleiras acima e abaixo escondidas por
meias-portas, de madeira as inferiores, de vidro as outras. Eram muito vulgares estes armários metidos na parede. 
Nunca percebi o porquê de a gaveta da direita conter o ferramental da casa. Martelo, turquês, chave de fendas, pregos, parafusos, um pedaço de cêra dura, espicha, repuxo e agulha de coser lona, saca-rolhas, e, calcule-se, escôvas e pomadas para sapatos. Se é certo que a divisão da casa não parecia ser a
mais apropriada a tais objectos, sabê-los naquela sólida gaveta poupava-nos tempo quando eram necessários. Nas prateleiras, louças, copos, garrafas. 
A meio da sala, seis cadeiras à volta de uma mesa extensível com fruteira ao centro, numa pequena toalha de renda. Na parede vaga – a janela e a porta para o corredor ocupavam duas paredes – um louceiro elegante, com alçado de finas portas de madeira fazendo moldura a vidros cinzelados de intenção decorativa, dando realce às louças mais mimosas ali expostas.
Mais uma vez, a China presente num serviço de chá com carantonhas de olhos em bico, abundância de castanhos e modéstia de dourados.



Pequenos cálices de vidro lavrado e alguns copos cónicos de pé alto sôbre base circular azul, que lembro em particular por serem usados para bebermos uns batidos de claras com açúcar, que minha mãe alcunhava de farófias. 
Uma delícia.

Por uma porta ao lado do armário encaixado na parede, chega-se agora à cozinha, que não é grande.
Também aqui, integrando a parede em frente, a última do prédio, vê-se logo, mais um armário. Mas êste com um espaço quadrangular disponível abaixo das gavetas, onde sôbre uma laje, duas infusas de barro guardam a água tirada do poço, para beber e cozinhar.



Ainda na mesma parede, a chaminé, por cima de uma pequena fornalha de alvenaria e de um fogão de ferro, enfeitado de amarelos que davam um trabalhão a arear. De concepção primária e uso simples, a fornalha era mais usada: uma bola de cisco, uns pedaços de carvão, um fósforo, e havia lume, que atiçado por um abanico estava pronto para receber a panela. 
Eu gostava mais do fogão de ferro – não tinha de o limpar – usado quase só para cozinhados no fôrno. Assim que apanhava minha mãe distraída, lá estava eu a abrir a torneira do depósito de água quente e tirá-la para um púcaro, nem sei bem para quê. Na parede oposta, nos ganchos de uma armação de madeira, tachos, panelas, frigideiras e outros aprêstos próprios da cozinha, pendurados; e uma mesa com toalha de oleado, onde comíamos. 
Invariàvelmente ali pousada uma cafeteira de esmalte,



que fazendo jus ao nome, continha uma beberagem feita com pó de café torrado, mexido em água a ferver com uma colher de pau, que minha mãe passava o dia a beber. Muito gostava ela daquilo! 
Falta agora o mais importante… para mim. No meio do chão, os ladrilhos davam lugar a um quadrado de madeira com dobradiças e argola de ferro: a passagem para o subterrâneo. Toda a casa – exceptuados o pátio de entrada e a cozinha – era assoalhada; e o soalho assentava numa estrutura de vigas de madeira cruzadas, abaixo da qual havia um espaço vazio com chão de terra, que ganhava dimensão sob a cozinha. Era o subterrâneo.
Com apenas um pequeno respiradouro, cheirava a môfo, mas isso não me impedia de descer a escada sempre que podia e imaginar-me no centro de uma aventura, entre résteas de alhos e cebôlas, um saco de batatas 
e o pote das azeitonas.

Voltando à cozinha, mais um porta, entre a mesa e a lareira, e estamos no quintal, tendo à esquerda ainda outra porta – o término do corredor. Ao lado, um alegrête com salsa, coentros e hortelã, além de vistosas cravinas 
e bocas-de-lôbo. Três ou quatro passos e somos chegados ao vértice do rectângulo onde se abre o poço, protegido por um muro circular de noventa graus. A um par de metros, num pedaço do quintal, meu pai mandou construir uma casa de banho, que passou a ser tomado de um balde com chuveiro e torneira, pendurado de uma roldana, onde se despejavam panelas de água aquecida. Todos os asseios passaram para ali também, com as vantagens que pode imaginar-se, não obstante a inexistência de água canalizada. Foi um notável passo de avanço, mas ainda longe da já conseguida energia eléctrica, visível nos condutores com a borracha forrada a pano de sêda, entrançados e estendidos ao longo das paredes, entre grossos isoladores de porcelana e interruptores, de porcelana também êles.

Mais um pouco e estamos em outra esquina do rectângulo, onde começa a parede que dividida com o Joaquim Ventura e o capitão Santana, limita o estreito espaço apelidado de quintal.





No pátio

Encostados à parede, nos ladrilhos de fantasia do pátio como nas lajes dos seus degraus, vasos com espadas de São Jorge e aspidistras



davam um toque de frescura à entrada. Sentado no chão frio daquela pequena escada, gastei muitas horas, ora a colorir desenhos, ora a copiar em papel transparente, bonècada que tinha à mão. De início entusiasmado por minha mãe, ganhei gôsto ao uso dos lápis, que passou a ser uma diversão habitual. E foi copiando por cima que eduquei o traço e cheguei a ter algum jeito para desenhar.


Já para recitar…

Fui mesmo coagido por minha mãe, para exibição quando havia visitas – na sala de jantar ou no escritório – a decorar dois ingénuos textos rimados que acabei por dizer com desenvoltura e quem sabe, com vaidade.
Lembro-me de parte deles:

“O Muguette

O Muguette, o meu gatinho,
está muito desdentado…
É que êle é já tão vèlhinho,
muito vèlhinho, coitado!

Gosta de caçar ratinhos,
mas não os pode comer…”

e

“O Pirilau

O Pirilau, era um gatinho deveras mau:
Fazia sempre… Miau!... Miau!... pelo carapau.”


Anos depois

Entre 1977 e 1979 fui Chefe do Estado-Maior do Comando da Zona Marítima do Sul. Por vezes, apetecendo-me menos comer do que cirandar por Faro, usava o tempo do almôço em longas caminhadas que com freqüência iam dar ao Bom-João. Foi assim que passando frente à minha janela, vi ali assomar uma cara conhecida do bêco do Paulos, a Branca. Cumprimentei-a com familiaridade. Retribuindo embora, percebi que não me reconhecera. Identifiquei-me como o menino de trinta anos atrás. Abriu-se num sorriso. Entabulámos uma conversa cheia de recordações. A senhora, agora dona da casa, viúva do tenente Amaro, um camarada do Serviço Geral, convidou-me a entrar e fez-me vê-la de ponta a ponta. 
cheiro das habitações, o seu recheio e a disposição que tem, são de algum modo o retrato de quem nelas vive. Senti-o. As paredes e os espaços eram os mesmos… a casa completamente outra. Isso adivinhava-se, aliás, ainda na rua, onde, as portas eram agora de ferro e a janela de alumínio não tinha parapeito,



novidades que me provocaram uma antipatia instintiva involuntária.
Maior segurança agora, é certo – não só o ferro em vez da madeira, como melhores fechaduras – mas a verdade é que antes, essa questão não existia… quase se podia ter a porta aberta. E a solução segura, fôra conseguida sem atentar na preocupação estética, sem a arte que um marceneiro pusera na feitura daquela outra porta – daquela minha porta – onde posei com o 
único cão da casa.






José Guerreiro
27 de Abril de 2018

5.1.18

A porta três


De Lisboa a Madrid

Empijamado em flanela grossa, deitado entre lençóis e abafado sob o pêso de uma manta, foi assim que tentei contrariar a febre e os arrepios. Não me admiraria que o paludismo, aquele violento primeiro ataque de paludismo que tive em Sá da Bandeira e se repetiu algumas vezes, estivesse ressuscitando e a dar um arzinho da sua graça. Não encontrando os amargos comprimidos de quinino, nem as pastilhas amarelas de ateberina que tomava quando criança, consegui, já não sei por que portas, arranjar a resoquina com que me auto-mediquei.

A chatice – grande chatice – era ter já o bilhete para o combóio que nessa noite – 16 de Maio de 1966 – me levaria a Madrid. Nomeado ao abrigo da OTAN para tirar um curso de alguns meses, sobre a artilharia e a direcção de tiro que equipariam as fragatas ‘Pereira da Silva’, devia estar em Torrejon no dia seguinte para tomar lugar num avião fretado que levaria à América dezenas de militares de diversas origens e com destinos vários. De mala feita e na posse de um maço de guias de marcha recebidas no MAAG (Military Assistance Advisory Group) que me definiam dia a dia, o tempo americano, sentia-me entalado entre cuidar do corpo e cumprir.

Ganhou o dever.

Lá me convenci de que estava a melhorar, ficar bem seria uma questão de tempo, e decidi-me. Com passos mais vagarosos do que os meus, desci o último terço da Frederico Ulrich, caminhei até Cacilhas e tomei um barco para Lisboa. Táxi, e segui para Santa Apolónia.

A temperatura era amena, mas no imenso espaço da estação, por todo o lado senti correntes de ar de mau aügúrio. Assim que pude meti-me no combóio.

Aninhei-me no banco do compartimento e partimos era quase meia-noite. Não preguei ôlho, agitado. Comprimidos anti-qualquer-coisa foram quatro; e ainda um supositório. Não tinha chegado o dia, quando fui acordado, sem grande delicadeza, por um funcionário da fronteira que queria ver-me o passaporte e carimbar a entrada em Espanha.

A previsão de melhoria falhou. A febre tinha aumentado e sentia-me mais frágil.


Chegado o combóio eram dez horas, tinha à espera um tipo do Consulado, cabo amanuense – o adido naval estava no mar. Meteu-me num automóvel e partimos em busca de hotel. Ao fim de duas horas de insucessos – com as festas de Santo Isidro em pleno, estava tudo cheio – lá consegui um quarto numa pensão algo manhosa na Gran-Via. O quarto era amplo e tinha uma cama metálica de cabeceira linda. Coisa antiga. Nunca tinha visto, nem voltei a ver, parecido sequer. Dois grandes círculos marcando as posições de um casal e por detrás, ao meio, um terceiro anel maior, fazendo o alçado, os três decorados com aplicações lavradas em relêvo, no mesmo metal brilhante. Gostei tanto que me fotografei ali deitado.


A febre não cedia. Tapei-me, preparado para aguardar encafuado a hora do avião. Mas, ao fim de pouco tempo, de repente, passou-me uma coisa pela cabeça, e dei um salto da cama, revoltado com a situação. De Espanha, conhecia mal, Ayamonte, onde tinha ido em tempos acompanhar a mulher do Comandante Quartin; e Vigo e Ferrol , aquando da viagem na ´Sagres’. Agora, na capital do país, decerto com mais interessantes ofertas, mal via por uma janela, a claridade do dia. Estava em Roma e não via o Papa. Molhei a cara p’ra fingir que me tinha  lavado, agasalhei-me e saí.

Em plena Gran-Via , não me foi difícil encontrar uma farmácia. Diálogo breve, usando o espanhol de trazer por casa que sabia e consegui uma embalagem de Optalidon, a única coisa disponível que me pareceu servir a situação. Nem li a bula. ‘Mamei’ quatro drageias, bebi bastante água e fui-me à vida, quero dizer, acrescentei-me à enorme quantidade de gente a circular nos passeios e fiz-me turista. E não é que o tratamento de choque resultou?! Num par de horas estava mais solto e enérgico.

Caminhei, caminhei, cirandei pela baixa da cidade, não andei menos de dez quilómetros, mas foi de táxi que voltei à pensão. Jantei e decidi ir a um cinema. Vinte escudos, caro, comparado com Lisboa. Não aguentei mais do que um quarto de hora. Conhecia os actores, conhecia-lhes as vozes… ouvi-los em espanhol com o diferente timbre de quem os dobrava, foi demais.

Voltei à pensão, ainda descansei um pouco e após um banho paguei a conta e segui para Torrejon. Dei com um cabo pouco esclarecido que me fez percorrer mais uma lonjura até encontrar alguém que me orientasse. Fiquei a saber que devia viajar fardado. Embora já desligado da pensão, voltei ali para pedir que me passassem a ferro a farda branca. Faltavam os sapatos de camurça. Já velhos e cambados, não os tinha trazido e pensava comprar um novo par numa cantina naval na América, onde os sabia bons e mais baratos. E quem é que encontra, em Madrid, uns sapatos lisos de camurça branca? Não eu. Depois de entrar em muita sapataria e ver o tempo a escoar-se, aceitei comprar sapatos de pelica. Embora feiosos e mal acabados, disfarçavam bem. Saí finalmente da pensão, agora de branco vestido.


De Torrejon a McGuire

Era meia-noite quando me sentei num mal-amanhado banco de pau, na sala de espera do aeroporto. Quatro da manhã, era a hora prevista para largada do avião, um Boeing-707. Voando para Oeste durante sete horas e meia, serão cinco e meia à chegada. Mais do que o tempo de vôo, as quatro horas que me esperavam naquele inóspito assento, metiam-me as costas p’ra dentro. Cheguei a deitar-me, mas nem assim descansei. Desafiando a minha paciência, o tempo usou de todos os vagares para chegar à hora de embarque.

O avião à cunha e toda a gente de pé, a enfiar a bagagem por cima das cabeças ou circulando em busca de mantas e almofadas, tornava ainda mais reduzida a quantidade de ar respirável. Pobre de quem sofresse de claustrofobia. A coisa complicou-se com um apagão de energia, por sorte de breves minutos. Descolámos, por fim. Sempre tive dificuldade em dormir em viagem. Pensei que de tão estafado, dormiria afinal. Engano. À beira de o conseguir, apareceu-me a hospedeira a perguntar se queria matabicho. Apetite nunca me faltou; e a comida de avião, com as suas peculiares ementas sempre me foi agradável. Sei que há quem deteste… paciência! Deve ter sido a digestão que me levou ao sono, mas, por não mais de uma hora. Acordei estremunhado, mal-disposto, enxovalhado, sujo, incomodado com a barba que parecia só agora ter crescido, a bôca amarga de tanto cigarro fumado, enfim, um frangalho.

O nosso destino era a base aérea de McGuire em New Jersey, onde não pudemos pousar por causa do forte nevoeiro que lá caíra. Aterrámos no John F. Kennedy, em Long Island, pertinho de Nova Iorque. Estivemos de castigo mais duas longas horas a respirar o ar cada vez mais pobre do avião. Aliviados, recebemos ordem de soltura e voámos para McGuire, onde pousámos eram dez horas.


Em McGuire

O alívio foi breve.

Depois de um médico ter ido a bordo, examinar os certificados de vacinação e confirmar que todos tínhamos cumprido as regras, pisámos, afinal, terra firme. Uma praça de saias da Força Aérea, recebeu-nos com considerações àcerca do que fazer de seguida. Pouco percebi da sua fanhosa pronúncia e desliguei. Desenrasquei-me.

Mas a minha curiosa atracção por peripécias, continuava a manifestar-se. A etapa seguinte foi a verificação das bagagens. Um tipo de nariz empinado e aspecto idiota, fez-me abrir a mala. Peça a peça, levantei quanto ali tinha. Depois de tudo ter visto, perguntou-me de onde vinha.

- De Portugal?... Então traz maçãs!

Que não trazia, como êle tinha visto, nem sabia que fôssem tão famosas as maçãs portuguesas. Fez então um gesto para que fechasse a mala, mas arrependeu-se logo. Mandou abrir de novo:

- Veio de Portugal? E não traz vinho do Porto? Deixe-me lá ver.

Voltei a mostrar-lhe cada escaninho da mala. Meio convencido, deixou-me passar. Ou gozara comigo – praxe a mancebo – ou não tinha apenas aspecto de idiota… era-o em pleno.

Fora do terminal do aeroporto, numa base aérea do tamanho de Almada, ainda sem conhecimento do desenho comum das unidades militares americanas e sem apoio à vista, vi-me só, em busca do passo seguinte, que surgiu, no clássico cilindro rotativo vermelho e azul que identifica as barbearias. Um negro, grande e gordo, apertou-me ao pescoço a capa protectora e com uma máquina eléctrica, desatou a cortar cabêlo como quem apara rente, a relva de um jardim. Um autêntico e rigoroso corte à magala. Olhei-me ao espelho e senti-me quase nu. Quando pedi que me cortasse a barba, mais uma surpresa: não podia, porque não tinha pincel. Singular barbeiro, sem pincel de barbear… Também não tinha escôva, mas com grande ênfase de gestos, empunhou um barulhento aspirador que engoliu os restos da tosquia. Não todos, que alguns sujaram ainda mais a farda, branca apenas por alcunha.

Amarrotado e sujo, de roupa como de corpo, que clamava por um banho, prossegui caminho, em busca de poiso, onde pudesse por fim descansar.

Antes, porém, quis reportar a minha chegada. Obrigado a viajar fardado, entendi dever fazê-lo junto de uma entidade militar. Errado. Não encontrei quem. Mas a senhora civil que vi por detrás de um balcão, a quem entreguei um exemplar da tão policopiada guia de marcha, deu-me de imediato um papel que ordenava a minha ida para Newport, no dia 20. Com mais uma guia, o sujeito ao lado passou-me um bilhete de avião para Providence para o mesmo dia. Aquela guia tinha efeitos mágicos.

Já mais instruído, tomei um autocarro militar da base, em busca de uma messe. Não tardei a encontrá-la: o Bachelor Officer Quarters (BOQ) – Instalações para Oficiais Solteiros. Tive um quarto que mais parecia a suite de um bom hotel. Exaustivo na minúcia com que dava notícias para casa, chegando decerto à chateza, dei-me à pachôrra de desenhar o esquema da minha opulência.


Abluções feitas, depois de um interminável e ensaboadíssimo duche, mergulhei no sono por nove horas. Quase dez da noite quando acordei, como não comia desde de manhã no avião, estava faminto e saí por um restaurante. Voltei ao terminal do aeroporto, onde vira um self-service. Reduziu-se-me consideràvelmente a quantidade de dólares. Voltei p’rá cama e repousei deveras.

A cem quilómetros de Nova Iorque, não tinha jeito que não fôsse conhecer a famosa e imensa metrópole.  Tomei um autocarro que parou numa estação terminal que conseguia na dimensão da altura a capacidade para receber camionetas de duzentos percursos. Uma Babilónia moderna com numerosos patamares ligados por ladeiras, escadas e tapetes rolantes. Saí e desemboquei na Rua 41. Precisava de um dicionário, a primeira etapa foi a ida a uma livraria. Bem quis, mas não consegui falar inglês – fui atendido por um espanhol que aviava um brasileiro. Não tinham o que queria. Continuei e acabei por comprar um pequeno dicionário de bôlso muito útil durante o curso. Ainda o tenho e consulto. Caminhei muito, cruzei três ou quatro avenidas, detive-me na 5.ª onde espiolhei umas quantas montras mais chamativas. Subi ao Empire State – obrigatório – encaminhei-me para a Broadway, mas já chateado, inverti o rumo. Achei a cidade escura, muito porca, mal-cheirosa, o ar sujo dos escapes dos automóveis. Não encontrei as beleza e elegância exportadas por Hollywood. Ao invés, só mulheres balôfas ou escanzeladas com pinturas esquisitas e pouco mais. Uma desilusão.

Recolhi já tarde ao meu vasto aposento e dormi ferrado. Acordei a tempo de arrastar as malas e ir pagar a conta a umas centenas de metros de distância. Pedi um táxi que não chegou, mas consegui em duas camionetas pôr-me no aeroporto de Newark às sete da manhã.


Em Newark

Um nevoeiro muito espêsso, impedia qualquer vôo. Que voltasse às 0945. Entretive-me a apreciar o mundo de lojas com montras muito bem armadas à cobiça dos viajantes. Para gastar mais uns minutos, sentei-me frente a um engraxador. Engraxava muito mal, mas cobrou-me a impensável quantia de sete dólares, isto é, duzentos escudos. Não tugi nem mugi.

Fui ao balcão, fiz o check-in e recebi o cartão de embarque:

- Gate three!

Aliviado da mala, apenas uma pequena pasta na mão e uns minutos pela frente, resolvi embarcar. Fui em busca da porta três. Devo ter visto mal: porta um, porta dois… porta quatro… Voltei atrás: o mesmo resultado. Olhei para o relógio: cinco minutos para o avião, comecei a ficar preocupado. Pedi ajuda a uma hospedeira com que me cruzei. Veio em meu auxílio, mas, tal como eu, não fez mais do que constatar a ausência da porta três. Mais uma busca infrutífera e… está na hora do vôo.

Na minha cabeça vai um destrambêlho. Que fazer?

Os pertences, a bordo de um avião a caminho de Providence. É sexta-feira, 20 de Maio e o curso começa segunda, em Newport. Estou sòzinho em terra estranha, com pouco dinheiro no bôlso, idealizando já a dificuldade em explicar-me, seja ao Adido Naval, seja ao Cônsul ou à Marinha. Tenho a noção de que fiz tudo bem, mas o resultado é um rotundo não. Será que sou um incapaz que nem consegue apanhar um avião a horas? Será que sou um incapaz?

É então que ainda mais uma vez a minha boa-estrêla se manifesta: à minha frente escancára-se uma porta daquelas que só abrem da pista. Ao longe, integrando uma imensa bicha de aviões avançando vagarosamente na pista de rolagem, aguardando a sua vez de descolar – o que em Newark acontecia à razão de uma por minuto – vejo na fuselagem de um deles o nome da companhia de que tinha o cartão de embarque – Allegheny.

Nem sequer me ocorreu, a hipótese de que não fôsse aquele o ‘meu’ avião. Esquecida qualquer interferência da razão, a acção tomou lugar. Saltei para a porta por cima de um murête que se interpunha, evitei um encontrão no homem que a segurava e desatei a correr – talvez conseguisse ainda os onze segundos e dois aos cem metros – segui a resultante do cinemático instantâneo que fiz mentalmente e depressa estava ao lado do nariz do avião, acenando para cima ao piloto, mão aberta, em sinal universal de paragem. Acompanhei a rolagem por alguns metros e o avião, um Convair, parou, fazendo parar todos os que se lhe seguiam. Aberta a porta avante a bombordo, foi desentranhada e desceu, a escada que sob ela embutida lhe dá acesso. Ofegante da corrida subi devagar, agarrado a um corrimão.


Nem o mais pontual passageiro mereceria tão insinuante olhar e a alegria do sorriso com que a hospedeira me recebeu ao portaló. Como tampouco mereceria a visão de duas pontudas maminhas que se adivinhavam, apertadas na blusa muito justa. Pasmo, como tive tempo e olhos para ver tudo isto, enquanto a moça conferia o cartão de embarque e confirmava ser eu o passageiro que faltara à contagem.

Mundo de brandos costumes aquele, em que se irrompia desenfreado pela pista de um aeroporto pejado de aviões, sem ser travado, beliscado, segurado, agredido. Imagine-se o que teria sucedido hoje, com as medidas de segurança a que o advento do terrorismo obrigou. É bem provável que não pudesse aqui dar agora êste testemunho.

- Mas, onde raio se terá escondido a Porta Três?




José Guerreiro
Calvaria, 5 de Janeiro de 2018



27.9.17

Angústia p’ra cagar




P’ra trabalhar estou cansado;
O brincar, não me apetece.
Estar de pé ou estar deitado,
Não me aquece ou arrefece!

E quanto mais neste estado
O meu corpo permanece,
Mais me sinto entediado,
Mais a vontade fenece.

Aguardando angustiado
Que o fim da angústia se apresse,
Sentei-me a ler no privado:

Não sei se foi do que lesse,
Se do cagar bem moldado,
Mas caguei todo o strésse!
                                                      José Guerreiro

                                                                                          Quelimane, 20 de Abril de 1975

9.8.17

O meu quarteirão

Ataíde de Oliveira e Antero de Quental – duas ruas e uma travessa em forma de éle – desenham o quadrado quase perfeito, do quarteirão onde morei até aos nove anos. Uma dezena de fogos, cujos quintais convergiam num poço de onde se tirava água a balde.



Pouco saía de casa. Minha mãe, não queria que o menino se misturasse com a garotada mais sôlta, que, com algum desdém, apelidava de môços-da-rua. De vez em quando, lá me era permitido pôr o nariz de fora, sentado ao poial da porta. Esgueirava-me logo que a via distraída, para olhar em redòr. Curioso, cirandava à volta do quarteirão, registando tudo. Esta falta de liberdade junto a casa, não colidia com as longas caminhadas – quantas vezes corridas – para executar mandados, sob contrôlo de tempo. Teria cinco anos, quando comecei a ser incumbido de ir à praça, fazer uma ou outra compra: no talho do Rudolfo, pedia carne de vaca; e do Brito, por 5$40 trazia meio-quilo de carneiro da perna. Mais tarde, aí pelos sete anos de idade, passei a ter mais espaço nas imediações de casa, que nunca desperdicei para aprender mais. Nem mesmo quando, tendo falhado a pontaria ao atirar uma pedra (não sei para onde), parti a vidraça de uma janela da casa do Transmontano.

Na porta ao lado, onde morava o Felício, quase nada acontecia, mas mais abaixo, à esquina, numa janela dos Leote podia aparecer a Cilinha, que me dava trôco às conversas acriançadas.

Se a seguir encontrava Dona Joaquina Camões, o diálogo tornava-se quase adulto e agradava-me sobretudo a sua atitude protectora, que um dia chegou a ter expressão real. Estava eu de cama, com febre alta e numa conversa através do poço, minha mãe lamentava-se de me ver piorar, ao invés da previsão do médico que pouco antes me observara. Perante os sintomas relatados e com a experiência de mãe de cinco filhos, Dona Joaquina foi peremptória: o menino tem garrotilho. Forçou uma segunda visita do médico, que foi obrigado a converter em difteria a gripe que, sem me ter feito abrir a boca, diagnosticara antes. Duas enormes ampôlas de sôro anti-diftérico espetadas na barriga e fui salvo quando o inchaço das amígadalas já pouco ar deixava passar. Eternamente agradecido, Dona Joaquina.

Logo a seguir, outra esquina, onde morava o Eduardinho Pité. Chamava-o. Do canto em frente aparecia também o Arsénio; e ali nos entretínhamos a comentar os feitos do Cuto no último Mosquito, ou a jogar ao berlinde, cheios de pena por não termos carôlos, as cobiçadas esferas de aço dos rolamentos. Como consôlo tirávamos da algibeira, o nosso melhor abafador. Nem sempre lhes batia à porta. Dava-lhes sinal com o som de uma gaita de cana que gostava muito de fazer. À vista de um canavial não resistia a tirar uma cana. Sem canivete, usava uma faca bem afiada, separava um pedaço com o comprimento de dois nós, com uma linha atava um bocadinho de papel de sêda bem esticado num extremo aberto, soprava em pequena abertura praticada no redondo junto ao outro lado e deliciava-me com o som roufenho que conseguia, em harmonia com as cantigas na moda.

Habitualmente fechada, a casa ao lado dava abrigo a duas irmãs entradas em anos, a Dona Emília que tomava conta da irmã mais nova, fraca de cabeça, no queixo um tufo de pêlos semelhante à barbicha de um chibo e a quem errada e maldosamente chamavam Carlos Quinto.

Defronte, no outro lado da rua, em mais um rés-do chão, vivia o Osvaldo Patrocínio, de quem viria a ser companheiro na Marinha.

Dali até à esquina apenas uma comprida parede caiada de branco, que a malta, com insistência, teimava em sujar com o vermelho da terra do solo. É que aquela parede, do quintal do Senhor Faílde, era a tabela usada dia a dia para pontapear uma bola de trapo, o maior número de vezes, sem que fôsse ao chão. Fazer uma daquelas bolas, arte muito considerada, era tarefa que cabia apenas aos eleitos, que além de arranjarem meias de malha de sêda de senhora para o enchimento, sabiam acabar o esférico com um cu-de-galinha bem feito e uma costura disfarçada. Eram os Vinhas, o Lòpinhos, o Leonardo Transmontano, algum O’Brien de Oliveira, o Felício, talvez o Jorge Aleixo, os artistas que se esmeravam a exibir os dotes para o pontapé. Eu e os mais novos, olhávamos cobiçòsos, tanto saber.

À distância da largura da rua no lado norte da Antero de Quental vivia a família Machado. Com tempo bonançoso, depois do jantar, íamos amiúde, eu e minha mãe, seroar a casa de Dona Maria Machado – a Mamã – cuja neta, Natália, foi a minha primeira amiga, responsável porque tivesse sido com bonecas que primeiro brinquei, enquanto à volta se cosia, fazia croché, tricotava ou bordava. Cedo me foram familiares, termos como cerzir, ponto-cruz ou ponto pé-de-flor.

No outro lado da travessa, uma esquina vazia de casas, mas atulhada de restos de cantaria de anteriores construções, onde reinavam urtigas, incapazes de deter o fascínio que ali nos agarrava em brincadeiras inventadas na hora. Mexer na terra era uma atracção.

A seguir era a casa dos O’Brien, três ou quatro irmãos – o mais novo, meu condiscípulo – renomados caçadores de pássaros, que me passavam à porta, armações de arame à cinta, enfeitada no regresso, com inúmeros passarinhos – mortos ao engôdo das agúdias esperneando espetadas no fino gancho-travão das armadilhas – pendurados, prontos para a fritada.



Depois vinha a casa do Joaquim Ventura – também meu companheiro de escola – com quem ia brincar – com êle e com a irmã, Elsa, chegando mesmo, se era hora disso, a sentar-me à mesa e partilhar das viandas – em segrêdo, que minha mãe me recomendava não comer fora de casa.

Entre esta morada e a minha, noutra esquina morava o Capitão Santana. No começo da carreira militar dormia na tarimba mas com tempo, ascendeu aos três galões dourados. Barlaventino, teria ao tempo, cinqüenta e poucos anos, era casado com Dona Adozinda e tinham duas filhas: a Fernanda e a Maria José.

Estas duas meninas, rigorosamente vestidas de estudantes – capa e batina – levaram-me teria uns seis anitos, ao meu primeiro baile, no ginásio do liceu velho. Sei que minha mãe se esmerou a ataviar-me, recordo-me de caminhar entre as duas irmãs e do ondular das capas sobre a minha cara com o vento soprando no espaço aberto entre as ruínas e os eucaliptos do caminho até ao ginásio, tapando-me os olhos, mal me deixando ver onde punha os pés, mas ficam por aqui as minhas lembranças. Entre gente a quem dava pela cinta, que terei andado por ali a fazer, noite dentro?

Pouco depois, o Capitão Santana – segurando vela – e a avó Francisquinha, apadrinharam minha irmã, baptizada na Sé.

Casa e quintal, desta família, ocupavam maior área do que qualquer outro fogo no quarteirão. Havia pequenos hortejos cultivados, uma frondosa figueira que deitava ramadas para o meu quintal e uma parreira que amarinhava parede acima, para dar sombra e uvas em pequena varanda do primeiro andar falso das traseiras.

A casa tinha aspecto sólido e estava pintada de uma cor arroxeada que a individualizava. Mas, estatuto mesmo, era-lhe dado pelo marco do correio postado à esquina bem junto da aresta entre as duas ruas. Só alguém que fôsse importante teria o correio à porta, pensava eu. Visitava muito aquele marco, sabia-lhe os detalhes; e se apanhava o carteiro na recolha das cartas, não me dispensava de ir espreitar e vê-lo por dentro.

A guerra, inicialmente tão favorável à Alemanha, mostrava-se agora com vantagem para os aliados. Dando-nos conta do seu curso, chegavam com freqüência, via postal, maços de folhas de papel de um conspícuo azul-irritante, abarrotadas de notícias. Em minha casa como na do Capitão Santana, a sua leitura não suscitava muito interêsse, já que grande parte continuava dentro dos envelopes e repousava sôbre móveis ou jazia pelo chão. Eram mais chamativas as fotografias que enchiam inúmeras revistas recebidas, de  blindados a porta-aviões, couraçados e cruzadores, fortalezas-voadoras, homens em uniforme, peças de artilharia fazendo fôgo, esteiras de fumo de aviões em queda, numa escolha bem feita pela propaganda aliada que exibia as suas vitórias e conseguia repôr um nível esperançoso de paz, onde ainda havia pouco o futuro era nublado.

À boca da noite, a BBC dava uma emissão em Português, naturalmente preenchida na totalidade com os sucessos da guerra. Acontecia, por vezes, estar a essa hora a fazer o papel de menino da casa, Dona Adozinda dera-me de jantar – decerto com o aval de Dona Maria José – e eu feito gente, fazia companhia ao senhor, ambos sentados em meiples, lado a lado.

Intrigava-me muito, aquele luminoso olho redondo verde mutante que o ajudava a encontrar a melhor posição do ponteiro da telefonia para ouvir as notícias. Operação de rigor, demorada, vagarosa, que aquela mão sapuda, levava a cabo com o maior cuidado e alguma destreza. Depois, puxava do livro de mortalhas, tirava uma, ajeitava-a, abria a onça, onde com dificuldade os dedos entravam para trazer tabaco e com paciência estendia-o no papel. Achado suficiente, enrolava-o (com pouco jeito), passava a língua pela cola e estava feito. Mas, valha a verdade, o resultado, mais do que um cigarro, era um canudo de papel de mortalha, amassado, tôrto e mal cheio. Levado à boca, entre um lábio superior enfeitado com uns quantos pêlos grisalhos e uma longa e estendida beiça inferior pedinchona, chegava-lhe finalmente o lume de um fósforo.

Ia observando atentamente todo este ritual – tão diferente do que via em meu pai, limitado a tirar um cigarro do maço de Paris – como diferente era o cheiro, mais intenso das irrequietas volutas de fumo em que se comprazia o meu companheiro de serão.

Era então, pronto para o noticiário, que o Capitão Santana, algo mouco, encostava o ouvido ao som e num silêncio atento, acompanhava a guerra.

Mas, o cansaço do dia, a digestão do jantar e uma predisposição natural, levavam-no direitinho ao sono. Obeso e flácido, comprimido na farda de cotim, apertado entre cinturão e talabarte, não tardava a cair num brando e mudo ressonar.

A face e a larga papada despejadas sobre o peito, a bòcha espreitando entre as abas do dólman, beata entre os beiços, apagada à míngua de tabaco e molhada da baba escorrida pelo canto da boca, acentuados papos sob os olhos cerrados… um retrato de repousada satisfação, reproduzia no Capitão Santana, a bem-aventurança de um Buda vizinho e amigo que fumasse.

– É tempo de ir para casa e dormir também!


José Guerreiro
Calvaria, 9 de Agosto de 2017