24.6.15

São João de Maputo


O santo por que me morro,
Venero e nunca refuto
E a quem sempre recorro,
É São João de Maputo.

Mas por mais que seja astuto,
Nem mesmo usando cachorro
Conseguiu ele em Maputo
Arranjar-me um alho-porro.

Enfiou-me assim o gorro
E faz-me passar por bruto,
Nesta noite em que concorro
Aos Florais de Maputo.

É pois a ele que imputo
Este dislate em que incorro:
Estar festejando em Maputo
São João sem alho-porro.                                                      



José Guerreiro                                                                                                   
Maputo, Junho de 1988

23.6.15

O soneto e a emenda

Nas câmaras a bordo dos navios, nos trânsitos das vedetas pelo Tejo e noutros ócios navais, havia muito quem contasse histórias, umas vividas, outras ouvidas e quem sabe se algumas apenas imaginadas. Acredito que ainda seja assim.

Era aos mais velhos – claro – que cabia a função; e aos mais novos a tarefa de ouvir com atenção, para repetir aos vindouros e manter vivo o encadeado.

O protagonista desta história chegou à Marinha trinta anos antes da minha entrada na Escola Naval.

Ouvi-a contar umas quantas vezes, sempre igual na essência. Nunca por quem a tivesse testemunhado ou sequer escutado do próprio.

O enrêdo é simples e fácil de relatar. Dar precisão ao enquadramento não me é possível. Como não posso contar como foi, resta-me imaginar como possa ter sido. Que me relevem o propósito, aqueles que porventura saibam outros pormenores ou conheçam o caso com maior rigor.

A coisa deve ter-se passado pouco antes da Guerra Civil de Espanha.

É prática universal, dar assistência a unidades navais estrangeiras em portos nacionais. Dessa tarefa é incumbido um oficial – oficial de ligação – que se lhes apresenta ciente das razões da estadia, informa os comandos dos pormenores das visitas de cumprimentos mutüos, das facilidades logísticas, de locais interessantes a conhecer ou eventuais áreas a evitar; e procura ter resposta para as perguntas suscitadas pela curiosidade de quem chega.

O jovem tenente foi nomeado oficial de ligação junto de um navio de guerra estrangeiro que estaria em Lisboa por uma meia-dúzia de dias.

Como às vezes acontece, o embaixador da bandeira do navio ofereceu um jantar a que se seguiria baile, aos oficiais das duas marinhas e a personalidades afins. Para o evento, aprazado para a véspera da largada, foi naturalmente convidado o oficial de ligação.

Providenciou a limpeza da jaqueta, do colete, da calça de galão e da capa acabada de chegar do alfaiate onde fôra a pôr os ouros da nova patente na gola. Todas as peças foram passadas a ferro com esmêro. Mudou a cobertura ao boné e viu que os sapatos de verniz luziam azeitados. Comprou mais um par de meias de seda preta, novo colarinho de goma de pontas dobradas e conferiu que não lhe faltavam os atavios de fixação à camisa – botões metálicos de mola para prender o colarinho ao cós, atrás e à frente – e botões de punho condicentes com o figurino. A terminar, não se esqueceu do laço preto de seda nem de limpar com benzovaque as luvas de pelica branca.

A embaixada ocupava um velho palacete inchado de história. No átrio, interessante estatueta segurava ao alto uma tocha que alumiava a entrada da saleta onde eram servidos aperitivos. Em pequenas mesas redondas com toalhas de um adamascado branco vivo, havia pires com artísticos canapés. Sobre rodelinhas de pão pròdigamente untadas com maionèse, manteiga ou pàtê, brilhavam as mais variadas viandas. Criados de libré cirandavam entre os convivas equilibrando na mão pesadas salvas com copos, garrafas, gêlo e sifão, servindo-os a gôsto. Ao meio, a uma mesa maior coalhada de garrafas vistosas, um moço todo ele gestos, servia còqueteiles.

As bebidas desataram as línguas e o bruàá das conversas, a dois ou pouco mais intervenientes, foi subindo de intensidade. Havia pouco tempo meros desconhecidos, iam agora a caminho de ser amigos.

Até que se passou ao jantar.

O salão estava um poço de luz e o lustre central um deslumbre.

Mesa comprida, cadeiras de altura modesta e bonito espaldar artístico. Toalha rica e baixela invejável. Fazendo jus à fama, a loiça, muito diplomàticamente, era de Sacavém. Frente a cada lugar um pequeno cartão com o brasão hospedeiro e o nome completo do convidado. Ao nosso camarada coube ficar muito próximo da senhora da casa.

Para entrada foram servidos tomates recheados assados no fôrno.

Disposto com arte sobre o prato pequeno, um tomate bem escolhido, livre de imperfeições, a que o sol dera o seu colorido, a calote superior cortada e tapada por um ovo estrelado ajustado ao diâmetro. À volta, pequenos pedaços de toucinho fumado, tomate e cogumelos que antecipavam o refogado do recheio; e a alindar tudo isto, ao lado, um pequeno e perfumoso raminho verde de manjericão. A entrada prometia.

O banho quente e a secagem enérgica do corpo com o bom e espêsso turco de algodão, o barbear, a massagem com pedra-ume, o talco usado com fartura, o ajuste lento a cada peça de roupa até se sentir bem vestido, tudo feito com mais tempo que de costume, somados à viagem, aos dois copos de uísqui com soda e às conversas de circunstância, esfaimaram-no.

Agora, a visão de todos aqueles tomates coroados de amarelo pelo ovo, espicaçou-lhe o apetite.

Quando a mulher do embaixador deu sinal de remar, conteve-se contudo e remou manso.  Com dificuldade, que era homem de mesa farta. Esse domínio sobre a vontade de ingerir e de fazê-lo depressa, propiciou que tivesse tido tempo de saborear, que se tivesse concedido  tempo para gostar. O agrado foi grande. Ou por isso, ou tão sòmente por mera cortesia, decidiu tecer loas à cozinha.

Sobrepondo a sua voz ao surdo ruído dos talheres e das pequenas conversas que começavam a esboçar-se, sorridente e delicado apontou o olhar firme à obsequiadora e com sonoridade bem timbrada fez-se ouvir:

- Minha senhora! Que requinte de entrada… que promessa de jantar... Deliciosos tomates! Cheios… bem recheados, saborosíssimos… que tomates!? Oh! Que tomates! Que soberbos tomates!

Tão repetido e insistente martelar na mesma dúbia palavra, fez cessar o zunzum das conversas e as pessoas cruzaram olhares de interrogação, incrédulas com o teor do discurso.

Também o orador deu pelo silêncio. Sentiu em redor de si o peso reprovador de todos os olhares. Parou. Percebeu. E rápido, o sorriso ampliado, cravando a mira na cabeceira da mesa onde se sentava a dona da casa, soltou a pérola:

- Tomates!?... Frutos!!!


Mezena

23 de Junho de 2015

18.12.14

De camarão a licôr

Tal como na Metrópole, a Marinha estruturava-se nos territórios de além-mar em tôrno de dois núcleos complementares, um militar e outro civil.

Os capitães dos portos, sendo embora militares, integravam o ramo civil, eram a Autoridade Marítima nas áreas sob sua jurisdição; e para assuntos de natureza militar naval tinham um segundo chapéu: eram Comandantes de Defesa Marítima.

Enquanto que outros licenciamentos de pesca eram obtidos nas Capitanias e até nas Delegações Marítimas, os de camarão, eram concedidos no cimo da estrutura civil, a Direcção dos Serviços de Marinha em Lourenço Marques. Devia-se isto à necessidade de um contrôlo geral distante, face ao apetite pelo lucro que o negócio da pesca, congelação, embalagem e exportação de camarão estava provocando.

Quando cheguei a António Enes – Outubro de 1970 – havia já uns quantos barcos dedicados a esta rentável actividade. Uma meia-dúzia.

Com alguma contenção, foram sendo concedidas mais licenças, criaram-se empresas que compraram barcos cada vez mais bem equipados e em pouco tempo havia em Moçambique uma considerável frota dedicada à captura de camarão, quase toda ela sedeada ou estacionando em dois portos: António Enes e Quelimane.

Entende-se: a maioria dos rios de Moçambique desàgüa no centro do território; e são as suas águas que roçam os leitos e transportam à foz os nutrientes que enriquecem os comedoiros do Índico, fazendo da área um manancial de vida marinha.


As embarcações usavam quase sempre duas redes de arrasto pelo fundo, com pesadas portas que as mergulhavam e afastavam mantendo cada uma a seu bordo. 


Os sacos, quando içados ao fim de cada lanço carregavam grande quantidade de pescado.


A diferença de preço entre o camarão e o resto era tão grande que só aquele era aproveitado. Um dó. O excedente voltava ao mar sem vida. A um ou outro mestre de maior confiança cheguei a pedir que me salvasse uma mancheia de pequenas azevias. Fritinhas, deliciava-me com elas.

Talvez em 1971, uma empresa que obtivera licenças de pesca de camarão, elegeu Moma como ponto de apoio e construiu ali uma planta fabril desenhada para o efeito. Criada por quatro sócios, incluía um madeirense radicado na África do Sul, um ou dois donos de um afamado restaurante de Lourenço Marques e um algarvio, Simão Zorrinha, o único de que conservo o nome. Era o homem que se mexia no terreno e freqüentava o balcão da Capitania em cumprimento das burocracias.

Os resultados de pesca da companhia não terão sido diferentes dos das congéneres ou dos previstos aquando do investimento no negócio. Porém, razões outras, quiçá relacionadas com qüotas e divisão de lucros, provocaram em alguns meses, atritos grandes que apontavam o fim da sociedade.

Assisti na Capitania ao acendimento das divergências e custou-me vê-lo. Era questão que passava ao lado do Capitão do Porto, mas o homem que existia por detrás da função não resistiu e emitiu opinião sobre a fragilidade das razões invocadas para desfazer a empresa. Parece que as minhas palavras fizeram eco naqueles espíritos agastados e a decisão foi protelada.  

Foi essa decerto a razão do convite para mediar um entendimento entre as partes. Tarefa que extravazava as funções que exercia mas que me agradou. Vivia ao tempo em fase de muita auto-confiança e o desafio de carácter quase diplomático que se me punha foi inapelável. Aceitei.

Alguns dias depois, um pequeno avião veio buscar-me ao ‘soi-disant’ aeroporto de António Enes e levou-me a Moma, onde me esperavam os quatro sócios.  

Devo ter-me sentido vaidoso do poder algo salomónico de que me vi investido, mas acredito que o não tenha denunciado. A reünião foi amigável e os desavindos sócios predispuseram-se a um entendimento. Quero acreditar ter tido virtude nisso. Foi decidido manter a sociedade. Claro que como qualquer lusa comemoração – potenciada ainda pelos áfricos calores - tudo terminou em grande e bem regada comezáina.  

Todo contente lá voei de volta a penates.

Um dia, não muito tempo depois, a caminho do almoço, andados os poucos metros do gabinete até casa, fui surpreendido por um inesperado caixote de madeira, deixado por desconhecidos no chão da entrada. Sem ser enorme, não era pequeno. Curioso, munido de martelo de orelhas, despreguei a tampa, levantei-a e deparou-se-me um amontoado de camisas de palha vestindo inúmeras garrafas. Um cartão identificava o conteúdo como presente de agradecimento dos sócios agora avindos. As bebidas vinham do restaurante de Lourenço Marques e devo dizer que quem escolheu as garrafas percebia da poda. Mais tarde não faltou também como contra-pêso – belíssimo contra-pêso - um frasco de ‘Chanel nº 5’ para a senhora da casa.

Há não muito tempo, depois de mais de quarenta anos comigo, abri uma garrafa de ‘Grand Marnier’ recebida nesse caixote. O lacre e o rótulo já ratados não retiraram ao licôr um acendrado e delicioso sabôr.

- Á nossa!


José Guerreiro
13 de Agosto de 2014

  


26.8.14

Marinha de outrora



Teve mau começo.

Não se sabe onde, quando e de quem nasceu.

Entrou na Roda em Faro a 18 de Abril de 1829.




Nesse mesmo dia o baptizaram na Sé com o nome de Sebastião e foi dado a criar a Bernarda Maria, mulher de Manuel Guerreiro, um casal que vivia na Tôrre de Natal, lugar da freguesia da Conceição, a meio caminho entre Faro e Pechão.




Com os tutores aprendeu a tratar do pomar e comerciar fruta.

‘Na forma do Sagrado Concílio Tridentino e da Constitüição do Bispado de Faro’, usando Sebastião Guerreiro como nome, casou-se com Thereza de Jesuz, de Pechão, que lhe deu dois filhos.

Enviüvou passados seis anos. No registo de óbito os nomes aparecem modificados: ela como Thereza Rosa de Jesuz, ele como Sebastião de Souza.

Sob a mesma regra e sendo de novo Sebastião de Souza, voltou a casar-se. Com Maria Catharina, mais uma vez de Pechão. Tiveram sete filhos, sendo que no registo de baptismo de pelo menos os três primeiros, volta a aparecer como Sebastião Guerreiro.

Do nome com que morreu, Sebastião Guerreiro da Tôrre, - gravado no gavetão do Cemitério da Boa Esperança que lhe guarda a urna - parece evidente a razão dos apelidos: Guerreiro adoptado do tutor; e Tôrre, do lugar.

De onde viria então o Souza? Uma explicação é que tenha acabado por saber algo da sua ascendência. Bem possível.

De qualquer modo, foi conhecido pelos três nomes e respeitado sob todos eles.

Ainda na posse de um Tôrre, existe no centro de Faro uma casa que foi sua e onde viveu, com frente na Travessa do Pé da Cruz e traseira na Rua Nova.



Esta casa foi palco de um auto, hoje com o seu quê de burlesco, mas que no fim do século dezanove, além de dramático, numa cidade pequena onde todos se conheciam terá tido contôrno de escândalo.

Foi o caso de Sebastião se ter ausentado a passeio para Lisboa durante uma semana, sem dar cavaco a Maria Catharina, exercício de liberdade de que ela não gostou. Tomou as suas medidas e quando o marido voltou, uma parede dividia a habitação em duas: cedeu-lhe a metade da frente e ficou com o lado da Rua Nova. Assim foi até Sebastião morrer em 1904. Dizia-se dela que não mais lhe falou.

Tiradas nos Grandes Armazéns do Chiado em 1900, são dessa escapadela aziaga, as duas fotografias a seguir:



A ocupação que lhe é atribuída nos documentos consultados é a de arrendatário.

Terá arrendado outras propriedades, mas houve uma à volta da qual a família se foi fixando, a Horta do Ferragial, cujo arrendamento aliás, foi herdado e mantido pelo primogénito do segundo casamento, Francisco Guerreiro da Tôrre.


   1939, Faro, Francisco Guerreiro da Tôrre



Dos dois ramos da família que teve em Sebastião o criador, houve cinco descendentes que se fizeram oficiais da Armada: um Construtor Naval, três da classe de Marinha e um do Serviço Geral.

É deste – Júlio Guerreiro da Tôrre - que quero falar.

Oitavo e último filho de Francisco, foi em 20 de Julho de 1903 que nasceu na Rua do Ferragial – actual Rua da Polícia, no preciso local onde hoje, à esquina, se entra no Comando da Polícia de Segurança Pública. Esquina que aliás só existe desde a urbanização da horta, com a abertura da rua Dona Teresa Ramalho Ortigão.

Cresceu na imensa propriedade de onde lhes vinha sustento. Armava aos pássaros, subia aos ninhos, chapinhava no tanque grande onde as mulheres pagavam uns centavos para lavar a roupa que ensaboavam e batiam na pedra lavrada posta em cada posição do lavadouro.


Faro, 1914/15? Parece ter uns 11 ou 12 anos.


Feita a instrução primária eclodiu a Grande Guerra.

Portugal era ingovernável. Os Presidentes do Ministério duravam dias. A dívida pública herdada em 1910, as despesas com a guerra, a inflacção, a desvalorização da moeda, empobreciam as pessoas e o futuro amedrontava-as.  

Para um miúdo cuja escolaridade terminara, o horizonte ficava longe.


Faro, 1918? Talvez aqui tivesse uns 15 anos.


O pai quis que fosse aprender o ofício de sapateiro. Júlio queria mais e rebelou-se.

Foi à Escola de Alunos Marinheiros - instalada no secular edifício que fôra Paço Episcopal, no Largo da Sé – colheu informações e decidiu que faria vida na Marinha. 


Era menor e precisava de autorização paterna. Levou ao pai os papéis a assinar, com medo de ouvir um não. Mas convenceu Francisco, que não deixou de o ameaçar:

- Quando perceberes a asneira e voltares, não contes comigo.

Assentou praça na Escola de Alunos Marinheiros do Sul. Foi o número 3 de 1919. Tinha 16 anos.

Freqüentou a Escola de Artilharia Naval que desde 1865 funcionava na Fragata Dom Fernando II e Glória.

Foi promovido a primeiro-grumète no dia em que completou 17 anos.




Lisboa, 1921?


Deve ser desse tempo e da Fragata Dom Fernando, esta equipa de futebol, em que Júlio é o quinto a contar da esquerda no último plano.

Feito artilheiro,


Lisboa, 1921?

não tardou muito, seguiu para o Extremo-Oriente, onde tínhamos presença naval constante.

Foi em Julho de 1922 a bordo do Paquete ‘Tenente Roby’.

A Lusitânia comemorava ainda a travessia aérea do Atlântico Sul por Sacadura Cabral e Gago Coutinho que elevara de uns pontos o índice de vaidade que lhe andava bem por baixo. A portugalidade na Ásia não era menor e os chineses iam fazendo sedosos bordados alusivos ao sucesso - p’ra mais tarde recordar.


Ali esteve por cinco anos, tendo por isso tido ocasião de servir em algumas unidades.

Construída no Arsenal de Lisboa, com fundos de uma subscrição nacional, reacção popular contra a submissão ao ultimato britânico de 1890, 


a canhoneira ‘Pátria - ter pertencido à sua guarnição - parece ter sido marcante na formação do jovem marujo.


1923, Extremo-Oriente, NRP ‘Pátria’



1924, Macau, NRP ‘Pátria’



1924, Shangai, NRP ‘Pátria’



1924, Shangai, NRP ‘Pátria’


Na fotografia acima, Júlio Tôrre está sentado no pau-de-cumeeira do tôldo; e no primeiro plano do lado direito, o segundo oficial desse lado, por quem ele nutria especial admiração é o 1º tenente Joaquim Marques Esparteiro, distinto artilheiro, possivelmente o Imediato.

De licença em terra alinhava em rapaziadas, destrajes e convívios.


1923, Macau, com Salvador Silvestre



1923, Macau, com José Marquilha




1924, Macau, com Beles Fragata, Júlio Bento e António Carrôlo



1924, Macau



1924.10.05, Shangai



Antecipando-se à Associação de Amizade Portugal-Portugal criada nos anos oitenta por Mário Moniz Pereira, vêem-se no dia da Rèpública de 1924 duas bandeiras de Portugal congraçadas, uma maneira original de expressar o desejo de que o país se reconcilie consigo próprio. 
Estar em Shangai não foi impedimento.


1925.10.14, Macau. Na Gruta de Camões.



1926, Macau



1926, Macau



1926, Macau. Elas não matam mas moem.

Júlio viveu muito tempo em concubinato com uma rapariga chinesa que o serenou e lhe refreou os ímpetos. Abria-se num sorriso quando falava de Macau, em especial da vida comum com a pequena.


1926, Macau. Na Gruta de Camões.


No Oriente, os marujos faziam grande gala no trajar. Os uniformes dos macaístas eram mesmo feitos por medida nos alfaiates e tinham um corte especial.



1926, Macau. Tirou as cartas de condução que havia para tirar.


Para a Ilha do Faial,1926 foi um ano terrível. De Abril a Agosto ocorreu uma série de sismos que culminou no dia 31 com um terramoto de maior violência que provocou mortos, muitos feridos e destruiu grande número de construções em várias freguesias, designadamente na cidade da Horta.

Somos um povo compassivo.

O Núcleo Desportivo Pátria, integrando muita marujada que a lonjura não tornara menos atenta, levou à cena em Hong-Kong em Fevereiro de 1927, uma Récita em benefício dos sinistrados do Faial.

Além de ter cantado no Acto de Variedades, Júlio representou a Tia Censura na comédia em um acto ‘Um Julgamento’.



Em Outubro de 1927 embarca no Transporte NRP ‘Pêro de Alenquer’ e regressa à Metrópole.


1929. Com 26 anos é 2º Sargento.


1934? Lisboa, Restauradores.

Apanhado por um fotógrafo de rua, com ar do pai de família que se prepara para ser. 
Casou-se em Janeiro de 1935.


1938.04.09, à beira do Arade


Num passeio da canhoneira 'Limpôpo', de Portimão a Silves, pelo Rio Arade.


1941, no Pôrto. 1º Sargento

De 1946 a 1951 prestou serviço nos Serviços de Marinha de Angola.


1947.07.05, Moçâmedes, Escrivão da Capitania
Com os filhos.



1947, Baía dos Tigres

Foi Delegado Marítimo da Baía dos Tigres nos últimos quatro meses do ano, tempo suficiente para denunciar o mau desempenho do Chefe do Posto Administrativo por ter matado um nativo à chibatada.

A fotografia mostra o edifício da Delegação Marítima, ligada por uma passadeira de concreto à rua principal e única da povoação, também ela do mesmo material, que cumpria em simultâneo a função de pista para o pequeno avião Stinson que tornava o deserto transponível.


1949, Lobito. Com mulher, filha e a macaca 'Lobito'

Foi Escrivão da Capitania do Lobito durante pouco mais de três anos. Regressou a Lisboa em Abril de 1951 para se preparar para o Curso Geral de Sargentos.


1951, Lisboa

Fotografia para renovação do Bilhete de Identidade que substituiu dois anos depois, quando se tornou Oficial do Serviço Geral e obteve o galão de Subtenente.


1953, Lisboa


1954.10.17, Lisboa, S. Vicente de Fora

Garboso, na sua sobrecasaca, símbolo de um caminho bem caminhado, apadrinhando uma noiva, filha de casal amigo.

No mês seguinte regressou ao ponto de partida, Faro; e foi Escrivão da Capitania do Porto até Agosto de 1959. Interessante é que a Capitania estava sedeada no mesmo ex-Paço Episcopal em que assentara praça quarenta anos antes.

Enviüvou em 1958 e tornou a casar-se.

Foi padrasto de um enteado que encaminhou p’rá Armada. Mais uma vez e sempre um artilheiro naval.
Enteado que tendo desaparecido cêdo teve ainda tempo de usar estrêlas nos ombros.

Júlio Guerreiro da Tôrre morreu a 1 de Janeiro de 1977, em Lisboa, no Campo de Santa Clara, num espaço onde após dois séculos de dedicação à saúde da Marinha, não pode mais morrer-se.



Mezena
26 de Agosto de 2014